O GLOBO – 19/04/2020

LUIZA BARROS 

Primeiro, as plateias foram reduzidas até desaparecerem por completo. Depois, os próprios programas de auditório precisaram parar. No lugar, entraram mais horas de jornalismo, e, definitivamente, nunca se viu tanta notícia. Enquanto isso, as intrigas dos folhetins congelaram no tempo, e passamos a rever histórias que eram antigas conhecidas. Ainda assim, encontramos motivos para rir: mesmo sem figurino ou cenário, comediantes fazem piada com o “novo normal” imposto desde que a pandemia do coronavírus virou o mundo de cabeça para baixo.

Mas talvez nenhum momento tenha sido tão emblemático quanto o domingo passado, quando, diante de um calendário esportivo suspenso, vibramos com o pentacampeonato da Seleção como se fosse a primeira vez. E, por uma hora e meia, fomos felizes de novo, como em 2002. Esses são apenas alguns exemplos de tudo o que mudou na TV desde o começo das medidas de isolamento social adotadas contra a Covid-19. Para proteger a vida humana, muito do que fazia parte da televisão como a conhecemos desde sempre precisou ser revisto. Apesar de todas as restrições de equipes, o meio se mostrou mais necessário do que nunca.


RECORDES DE AUDIÊNCIA

Segundo dados do Ibope, na semana de 6 a 12 de abril, o tempo médio que cada pessoa passou assistindo à TV diariamente foi de 7h54, um aumento de 1h20 em relação à primeira semana de março, antes da pandemia. Entre as 20 maiores audiências de TV dos últimos cinco anos, 13 foram registradas em março, no início das medidas de distanciamento.

— Neste momento sem paralelo, a TV reforçou seu papel de companhia para muitas pessoas. — aponta Melissa Vogel, CEO da Kantar IBOPE Media. — Enquanto a média diária mundial de consumo antes da pandemia era de 2h55, no Brasil ela já era mais do que o dobro. Continuamos a monitorar o comportamento da população para entender quais serão os reflexos a longo prazo.

Com o prolongamento da quarentena, também surgem novas medidas além de antigas produções reeditadas e do aumento das horas dedicadas ao jornalismo. Na TV Globo, a mais recente foi a decisão de retomar o “Encontro com Fátima Bernardes”, que, a partir de amanhã, também contará com a participação de Ana Maria Braga, de casa. Outras propostas incluem uma live multiplataforma com Ivete Sangalo e a apresentação, hoje, no “Domingão do Faustão”, de parte da live que Roberto Carlos irá realizar em seu estúdio na Urca, no dia em que faz 79 anos de idade. Segundo dados do Painel Nacional de Televisão (PNT), a emissora carioca passou de 13 para 15 pontos durante todo o dia (das 6h às 5h59), um crescimento de 15% em relação à média de 2020, com um incremento de 6,3 milhões de pessoas no alcance da TV no período. Na faixa das 11 horas consecutivas ao vivo (das 4h às 15h), o crescimento foi de 22% em relação à média do ano. — Agora, passado um mês do início do isolamento, entendemos que as pessoas estão se adaptando às novas rotinas e têm novas preocupações — diz Carlos Henrique Schroder, diretor de Criação e Produção de Conteúdo da Globo. — Por isso, Fátima Bernardes volta para o estúdio do “Encontro” nas manhãs, em um novo modelo, com equipe muito reduzida, fazendo entrevistas por vídeo com os convidados. E estamos oferecendo novos formatos de entretenimento, como a exibição do megafestival de música One World em nossas diversas plataformas.

CENA HISTÓRICA NOS EUA

Schroder reconhece que as decisões não foram fáceis de tomar. Nem são definitivas. — Vamos aprendendo e reavaliando dia a dia nossas ofertas para o público, que também vai se adaptando ao novo cenário, desafiador para todos —conta.

Embora o brasileiro sempre tenha tido uma relação especial com a TV, as mesmas limitações se impõem ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, um momento já histórico foi a transmissão do “Saturday night live” de 11 de abril. No ar desde 1975, o programa de esquetes é um celeiro de talentos que tradicionalmente recebe os principais nomes da música, do cinema e da política em seu auditório no Rockefeller Center, em Nova York — cidade em que o número de mortes por Covid-19 já ultrapassa a marca de 14 mil. Pois a edição de 11 de abril teve Tom Hanks, que convalesce do vírus, como apresentador convidado, direto da cozinha de sua casa.

“Bem, vai parecer um pouco diferente do que você estava acostumado? Sim. Vai ser estranho ver esquetes sem grandes cenários e caracterizações? Sim. Mas vai fazer você rir? Bem, é o ‘SNL’, vai ter algumas coisas boas, talvez uma ou duas péssimas”, brincou Hanks.

Há mais ou menos um mês, quando a pandemia se aproximou e a Globo tirou do ar as novelas inéditas, uma pergunta se impôs: essas tramas, ao voltarem, abordarão o assunto? Hoje, tão pouco tempo depois, já está tudo bem diferente no mundo da televisão. E o que era dúvida virou certeza: no momento em que isso tudo passar, o coronavírus e suas consequências estarão forçosamente estabelecidos na vida do público. Tanto que a interrogação inicial se alterou para: como será fazer teledramaturgia sem mencionar a pandemia? Os roteiristas de “Sob pressão”, série médica da Globo, planejam tratar da doença, só ainda não sabem como desenvolverão a ideia. Autor de “Salve-se quem puder”, Daniel Ortiz também avisou que falará de Covid-19 quando a produção retomar as gravações. Ele está preparando os capítulos, mesmo sem ter certeza de quando exatamente isso acontecerá.

Aqui vale um parêntese para observar que não foi só a televisão que mudou. Em um mês, o olhar do espectador também é outro. Fica impossível assistir a “Ozark”, por exemplo, sem pensar que o ambiente de um cassino prevê aglomerações. Ou rever “Família Soprano” sem matutar sobre o anacronismo dos gestos de carinho quando os personagens se abraçam e se beijam como se não houvesse amanhã. Tudo isso que era tão natural de uma hora para a outra parece impossível e até falso. Comportamentos prosaicos “envelheceram” ao perderem a conexão com a realidade. Fecha o parêntese. Voltando à programação, em meio à onda de reapresentações, há as atrações que brotaram dos acontecimentos. É o caso de “Adnet em casa”, que Marcelo Adnet está estrelando no Globoplay. Ou as que sobrevivem aos obstáculos, como o “BBB” 20, que acaba de ser esticado em quatro dias. Nunca o reality foi tão falado nas redes sociais e o recorde de votos aconteceu agora. Esta edição, toda ela muito feliz, é, como declarou Pedro Bial numa live com Fabio Porchat (outro formato de ocasião), uma situação de espelhamento: o público isolado em casa acompanha os brothers igualmente confinados.

A televisão americana também embarcou e lançou “Saturday night live — At home”. A primeira edição teve apresentação de Tom Hanks, ator que acaba de se recuperar do corona. O humorístico brincou com situações relativas à pandemia, claro. O AMC está apresentando um talk-show com Jeffrey Dean Morgan —o Negan de “The walking dead” —e a mulher dele, a atriz Hilarie Burton Morgan. O casal está na sua fazenda, no interior de Nova York. Eles conversam com amigos famosos e outros convidados, através de chamadas de vídeo, sobre a vida na época do distanciamento social. Já a MTV encomendou a série “Lockdown laughs (risadas de lockdown) with Charlotte Crosby”. Ela fará uma curadoria de clipes do mundo inteiro produzidos nestes tempos estranhos. Esses são apenas alguns exemplos.

A televisão já é outra. A teledramaturgia entrou em reprise em quase todas as emissoras. O jornalismo domina as grades. A GloboNews escalou o ranking dos canais mais vistos da TV paga e chegou ao primeiro lugar em abril. Quando ela voltar a produzir ficção a todo vapor, seus criadores não poderão fingir que nada aconteceu.