O Brasil perdeu duas posições e agora ocupa o 107º lugar entre os 180 países que integram o ranking de liberdade de imprensa de 2020 da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). No ano passado, o país já havia registrado recuo em duas posições no acompanhamento feito pela entidade.
O recuo brasileiro, segundo o documento divulgado nesta terça-feira (21), está associado à chegada do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao poder. Segundo a organização, há “deterioração do ambiente em que operam jornalistas, marcado por hostilidade permanente que atravessa a relação do governo com a imprensa”.
A RSF destaca o papel negativo do chamado gabinete do ódio, que afirma cercar o presidente e promover ataques em larga escala a jornalistas que fazem revelações sobre políticas do governo.
Além disso, de acordo com a entidade, o governo intensificou seus ataques em meia à pandemia de COVID-19. “Desde o início da epidemia de coronavírus, Jair Bolsonaro redobrou seus ataques à imprensa, que ele considera responsável por uma ‘histeria’ destinada a gerar pânico no País”, disse o estudo da organização.
O documento salienta ainda que o presidente “insulta e ataca sistematicamente alguns dos jornalistas e meios de comunicação mais importantes do País, o que estimula aliados a fazerem o mesmo, alimentando um clima de ódio e desconfiança para com os diferentes atores da informação”.
O Brasil mantém tendência de queda – em 2019 já havia caído duas posições –, mas permanece a frente de Venezuela (147.ª) e Cuba (171.ª). A metodologia do ranking baseia-se num sistema de pontos que analisa pluralismo, independência, ambiente e autocensura, arcabouço jurídico, transparência e qualidade das infraestruturas de apoio à produção de informações.
A edição 2020 do ranking demonstra que a próxima década será decisiva para o futuro do jornalismo, assinala a RSF. A pandemia de Covid-19 destaca e amplia as múltiplas crises que ameaçam o direito a informações livres, independentes, plurais e confiáveis, informa a organização.
“Estamos entrando numa década decisiva para o jornalismo, ligada a crises concomitantes que afetam o futuro do jornalismo”, diz o secretário geral da RSF, Christophe Deloire. “A epidemia de coronavírus explicita os fatores negativos para o direito a informações confiáveis, sendo ela própria um fator multiplicador. O que acontecerá com a liberdade, o pluralismo e a confiabilidade das informações até o ano 2030? A resposta a essa pergunta está sendo construída hoje.”
Existe uma correlação entre a repressão à liberdade de imprensa durante a epidemia de coronavírus e a posição dos países no ranking, segundo a entidade. A China (177a) e o Irã (173a, 3), focos da epidemia, instauraram sistemas de censura massivos.
No Iraque (162a, – 6), a agência de notícias Reuters teve sua licença suspensa por três meses, algumas horas após a publicação de uma notícia que questionava os números oficiais dos casos de coronavírus.
Na Europa, na Hungria (89a, – 2), o primeiro ministro Viktor Orbán aprovou uma lei chamada “coronavírus” que prevê penas de até cinco anos de prisão para quem disseminar informações falsas, um meio de coerção completamente desproporcional.
“A crise sanitária é uma oportunidade para governos autoritários implementarem a famosa ‘doutrina do choque’: tirar proveito da neutralização da vida política, do espanto do público e do enfraquecimento da mobilização para impor medidas impossíveis de adotar em tempos normais”, afirma Christophe Deloire.
O continente americano é o que, atrás da Europa, registra as melhores condições para o exercício do jornalismo. “Ainda que os pesos-pesados regionais, os Estados Unidos e o Brasil, tenham se tornado verdadeiros antimodelos”, segundo a RSF. A razão disso, destaca o relatório, está nas ações de dois chefes de Estado eleitos democraticamente: Donald Trump, dos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil. Ambos estariam “desmoralizando a imprensa e encorajando o ódio aos jornalistas em seus países”.
Na América Latina, ressalta o estudo, os ataques físicos à profissão costumam ser acompanhados de campanhas de assédio cibernético, ou cyberbullying, realizadas por exércitos de trolls e/ou apoiadores dos regimes autoritários. “Esses métodos de censura online estão proliferando perigosamente e são particularmente violentos contra as mulheres jornalistas”, enfatiza a RSF em seu relatório.
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