O ESTADO DE S.PAULO – 21/04/2020

Isaac Stanley-Becker e Tony Romm – THE WASHINGTON POST 

Um trio de provocadores de extrema direita e a favor do porte de armas está por trás de alguns dos maiores grupos que convocam no Facebook protestos contra a quarentena nos EUA. Um sinal de que algumas manifestações, aparentemente espontâneas, estão sendo arquitetadas por uma rede de ativistas conservadores.


Os grupos do Facebook têm como alvo os Estados de Wisconsin, Ohio, Pensilvânia e Nova York, e parecem ser obra de Ben Dorr, diretor político de um grupo chamado Minnesota Gun Rights, e de seus irmãos Christopher

e Aaron. No domingo, os grupos, juntos, tinham mais de 200 mil integrantes. Eles continuaram a se expandir rapidamente, dias após Donald Trump endossar esses protestos, sugerindo que cidadãos deveriam “libertar” seus Estados.

O próprio Trump vinculou os protestos ao porte de armas ao dizer aos moradores da Virgínia que a Segunda Emenda estava “ameaçada” quando os encorajou a “liberta” o Estado.

A atividade online significa que a oposição às restrições é mais difundida do que as pesquisas sugerem. Quase 70% dos republicanos disseram apoiar uma ordem nacional de ficar em casa, de acordo com uma pesquisa da Quinnipiac – 95% dos democratas apoiam a medida.

Os grupos no Facebook se tornaram polos digitais para o mesmo tipo de desinformação divulgada nos últimos dias nas capitais – desde comparar o vírus à gripe até questionar as intenções dos cientistas que trabalham com uma vacina.

Na semana passada, o governo Trump esboçou três fases para a reabertura dos estados com segurança – diretrizes contrariadas pelo presidente ao encorajar os cidadãos a se opor às regras.

“Se as pessoas se sentem assim, elas podem protestar”, disse Trump no domingo. “Alguns governadores foram longe demais, algumas das coisas que aconteceram talvez não sejam tão apropriadas.”

O Facebook disse, no domingo, que não planeja tomar medidas para remover os grupos ou eventos, em parte, porque os Estados não os proibiram.

O grupo “Moradores de Wisconsin contra a quarentena excessiva” foi criado na quartafeira por Ben Dorr. Seus irmãos criaram grupos semelhantes em Ohio e Nova York. Na prática, figuras pró-Trump – incluindo algumas que atuam como apoiadores de sua campanha –, bem como grupos ligados a doadores conservadores importantes, ajudaram a organizar e promover os atos.

Alex Stamos, diretor do Observatório da Internet de Stanford e ex-diretor de segurança do Facebook, disse que os grupos constituem uma forma de desinformação doméstica, porque são operados por usuários com motivações financeiras e políticas para influenciar o debate público com “informações não verídicas”.