O GLOBO – 22/04/2020

MARINA GONÇALVES

Discurso de ódio feito pelos governantes, caso de Hungria, EUA e Índia, ajuda a fomentar discriminação religiosa e étnica.

No fim de fevereiro, a principal autoridade da ONU para os direitos humanos, Michelle Bachelet, pediu à comunidade global que demonstrasse mais solidariedade às pessoas de origem asiática sujeitas a casos cada vez mais frequentes de discriminação em meio ao surto do novo coronavírus, surgido em Wuhan, na China. Diversos líderes ainda insistiam em se referir à doença como o “vírus chinês”, aumentando ainda mais o preconceito contra cidadãos de origem asiática, refletido em atitudes discriminatórias que se multiplicavam mundo afora conforme a doença se espalhava.

Mas a pandemia não apenas agravou o preconceito contra chineses e cidadãos do Leste Asiático: minorias religiosas e étnicas em vários países vêm sendo cada vez mais perseguidas por conta da doença e, em alguns casos, são deixadas de lado das políticas públicas dos governos locais.

Um documento da Human Rights Watch, publicado na semana passada, aponta que crimes de discriminação e ódio relacionados à doença têm como alvo estrangeiros e visitantes da diáspora negra nos Camarões, indianos muçulmanos e do Nordeste do país, além de várias minorias religiosas no mundo.

RETÓRICAS ‘DESLEAIS’

Na Ásia, a discriminação e estigmatização se voltaram agora contra os africanos que vivem na China, especialmente na província de Guangdong, no Sudeste do país, conhecida como Little Africa. No início da epidemia, quando a doença não havia atingido outros continentes, mais de 100 restaurantes em Hong Kong recusaram clientes da China continental. Agora, no entanto, o preconceito se voltou contra cidadãos do continente africano, com supostas quarentenas forçadas, ameaças de cancelamento de vistos e inclusive de deportação.

Muitas vezes, o discurso de ódio e preconceito é destilado pelos próprios governantes, caso de Hungria, Estados Unidos e Índia.

—O racismo e a discriminação estimulados pelos líderes são especialmente desleais. Nos EUA, a retórica focada em rotular o vírus como “chinês” ou “de Wuhan” coincidiu com um aumento nos crimes de preconceito contra americanos asiáticos. O líder da Hungria, Viktor Orbán, usa o coronavírus para abastecer a xenofobia, chegando a dizer a funcionários do governo que há ligação entre imigrantes e o vírus. Na Índia, a hashtag Corona Jihad viralizou depois que membros do partido no poder fizeram essa conexão — explicou ao GLOBO Akshaya Kumar, diretora de gestão de crises da Human Rights Watch.

Na semana passada, a organização STOP AAPI HATE recebeu mais de 1.500 denúncias de discriminação de americanos asiáticos em todo o país. De acordo com o

Pew Research Center, a população asiática nos EUA é o grupo étnico que mais cresce, à frente inclusive dos latinos. Manjusha P. Kulkarni, da Asian Pacific Policy and

Planning Council, uma das coordenadoras do centro, afirma que o número de denúncias vem crescendo:

— As declarações do presidente certamente não ajudaram. Na verdade, acredito que elas colocam cidadãos asiáticos americanos em situação de vulnerabilidade. Sinaliza a várias pessoas no nosso país que é OK ser racista.

A pandemia também vem ajudando a reforçar antigos preconceitos. Na Eslováquia, o prefeito de Kosice, Jaroslav Polacek, postou nas mídias que o coronavírus poderia se espalhar por causa do comportamento de “pessoas socialmente não adaptáveis” em assentamentos ciganos que, segundo ele, não respeitam medidas de emergência. Na Índia, fake news que sugerem que a comunidade muçulmana esteja espalhando a Covid-19 deliberadamente ajudaram a aumentar a tensão contra a minoria religiosa, alimentada pelo presidente Narendra Modi.

A discriminação religiosa também aumentou no Paquistão, onde a International Christian Concern (ICC) documentou incidentes contra cristãos e outras minorias.