O ESTADO DE S.PAULO – 03/05/2020

Taylor Lorenz

Em 18 de março, enquanto empresas dos EUA se preparavam para cortes e demissões, a influenciadora fitness Paige Hathway postou uma mensagem para 4 milhões de seguidores no Instagram. “Sei que a vida é difícil com a quarentena, por isso quis dar um presente de US$ 5 mil a alguém”, ela escreveu. Na foto, Paige segurava uma pilha de notas de US$ 100.


Seus fãs começaram a indicar amigos que precisavam de dinheiro. “Eu necessito de um milagre neste minuto”, escreveu uma mulher. Vários usuários enviaram emojis de oração. Enquanto o coronavírus continua destruindo vidas e empregos, o Instagram está sendo inundado de presentes em dinheiro vivo como o de Paige. Astros de reality shows, influenciadoras e rappers estão na onda.

Para os mais de 26 americanos residentes que pediram seguro-desemprego nas últimas semanas e outros milhões que lutam para cobrir custos imprevisíveis, este dinheiro poderia vir em boa hora. Mas embora sejam considerados esmolas, estes presentes fazem parte de uma tática que invadiu a rede.

Paige, por exemplo, recebeu milhares de dólares da empresa de marketing Social Stance para promover as doações. Participantes em potencial foram instruídos a seguir uma lista de cerca de 70 contas que a Social Stance estava patrocinando. A companhia cobrou US$ 900 por uma vaga na lista. Quem adquiriu vagas de “patrocinadores” poderiam ganhar milhares de novos seguidores da noite para o dia.

“Se você conta para as pessoas que elas podem ganhar 50 mil seguidores em três dias, elas irão fazer isto”, disse Nathan Johnson, de 19 anos, que ajuda astros do YouTube e do TikTok a realizar os sorteios. O negócio que ele dirige com seu amigo Carter, de 16 anos, é simples: eles pagam uma quantia a um grande influenciador para “hospedar” uma distribuição de dinheiro, depois vendem vagas em listas para lucrar.

Os sorteios de dinheiro pelo Instagram existem desde 2016. Mas em 2019 começou a surgir a primeira onda de distribuições com patrocinador. Na época, a maioria das estrelas dava coisas como bolsas da Louis Vuitton, mas agora todos sorteiam dinheiro. “As pessoas precisam mais de dinheiro do que de bolsas. Em termos logísticos é mais difícil fazer uma foto com a bolsa quando todo mundo está trancado em casa”, disse Warwick.

Com muitos acordos com marcas e viagens parados por causa do vírus, as doações proporcionaram aos influenciadores uma maneira de faturar. “Se você fica sabendo que pode ganhar US$ 20 mil postando uma distribuição de dinheiro no Instagram, provavelmente fará isto”, disse Johnson. Mas nem todos os sorteios têm a mesma transparência. “Muitas páginas fazem promessas falsas”, afirmou.

Um porta-voz do Instagram alertou que muitas distribuições de dinheiro podem infringir as diretrizes da comunidade da companhia. “Não é o tipo de experiência que queremos criar no Instagram”, afirmou. Além disso, segundo o advogado Robert Freund, muitos destes eventos poderiam infringir as leis estaduais referentes a concursos.