O ESTADO DE S.PAULO – 05/05/2020
Patrik Camporez e Jussara Soares
O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, disse em nota que “agressão a profissionais de imprensa é inaceitável”, “liberdade de expressão é requisito fundamental de país democrático” e “independência e harmonia entre Poderes são imprescindíveis”. Já o presidente minimizou a agressão a jornalistas: “Se houve, foi de algum infiltrado”. O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu apuração do caso.
Num jogo combinado com o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, divulgou nota ontem para afirmar que “qualquer agressão a profissionais de imprensa é inaceitável”, que “liberdade de expressão é requisito fundamental de um país democrático” e que “a independência e harmonia entre os Poderes são imprescindíveis para a governabilidade do País”.
Assim, coube às Forças Armadas tentar colocar água na fervura da crise política elevada no domingo com um novo discurso do presidente. Ao assumir esse papel, os militares do governo deixam o presidente livre para inflamar seu eleitorado.
A nota da Defesa também teve o objetivo de acalmar representantes das Forças que não gostaram de o presidente ter afirmado que a caserna está com o governo. O ministro da Defesa sofria pressões para divulgar nota deixando claro que o papel dos militares é defender a Constituição e não um governo. A hierarquia militar estabelece que, se o chefe fala, ninguém mais se manifesta, assim Azevedo conseguiu controlar ataques de militares de fora do governo ao presidente.
Ontem, antes de o ministro da Defesa divulgar a nota, o presidente Jair Bolsonaro, que participou do ato no domingo, havia colocado em dúvida as agressões a profissionais do Estado. Na ocasião, o repórter fotográfico Dida Sampaio e o motorista Marcos Pereira foram agredidos fisicamente por manifestantes prógoverno, assim como outros profissionais da imprensa. O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao Ministério Público para investigar o caso. A 5ª Delegacia de Polícia de Brasília também abriu investigação e foca em três homens identificados pelo repórter como agressores.
“Eu não vi nada. Estava dentro do Palácio (do Planalto). Na rampa. Não vi. Recriminamos qualquer agressão que porventura tenha havido. Se houve agressão foi de algum infiltrado, algum maluco, deve ser punido”, afirmou o presidente em frente ao Palácio da Alvorada.
No domingo, sem citar a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que barrou a posse de Alexandre Ramagem na Polícia Federal, Bolsonaro disse que “chegou no limite”. “Daqui para frente não tem mais conversa.” “Vocês sabem que o povo está conosco, as Forças Armadas ao lado da lei, da ordem, da democracia, liberdade também estão ao nosso lado. Vamos tocar o barco, peço a Deus que não tenhamos problema nessa semana, porque chegamos no limite, não tem mais conversa, daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço”, afirmou em discurso nas redes.
Na nota, o ministro da Defesa diz que “as Forças estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”. “Este é o nosso compromisso.”
Em entrevista no Planalto, o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, adotou o mesmo tom de Azevedo. “Liberdade de expressão é requisito fundamental e a liberdade de imprensa é prezada como um todo. Qualquer tipo de agressão a jornalistas tem de ser apurada. E ela é inadmissível.” Ao lado de Braga Netto, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, afirmou que Bolsonaro “se mostrou bastante aborrecido” com a agressão. “Ele não controla esse pessoal todo.”
Investigação. Em ofício, Aras pediu que as agressões sejam investigadas. Ele disse que “os eventos são dotados de elevada gravidade, considerada a dimensão constitucional da liberdade de imprensa, elemento integrante do núcleo fundamental do estado democrático de direito”.