O ESTADO DE S.PAULO  – 07/05/2020

Vera Rosa

A CPI das Fake News virou o novo alvo de ataque do Planalto. Além de distribuir cargos em repartições com orçamento vistoso para montar uma base aliada no Congresso, impedindo eventual processo de impeachment, o presidente Jair Bolsonaro age agora para que o Centrão barre investigações na CPI.


O bloco que tem em seu “núcleo duro” partidos como DEM, Progressistas, PL, Republicanos e Solidariedade é considerado o fiel da balança para a estabilidade do governo. Nessa correlação de forças, o grupo pode mudar o rumo da CPI se pender para o lado do Planalto na comissão, hoje com maioria oposicionista.

Após deixar a Esplanada acusando Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal, o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro deu sinais de interesse em comparecer à CPI no Congresso. A comissão é mista, reúne deputados e senadores e Moro possui ali uma bancada a seu favor. O Centrão, porém, já se prepara para a revanche e fará de tudo para desconstruir o ex-juiz da Lava Jato, que levou o mundo político ao banco dos réus. Nesse caso, contará com o apoio do PT do ex-presidente Lula, preso na operação.

As sessões da CPI estão suspensas por causa do coronavírus, mas o pedido de convocação de Moro deverá ser aprovado assim que os trabalhos forem retomados.

Na prática, o Planalto vai medir a fidelidade dos novos parceiros do Centrão e o índice de apoio servirá como moeda de troca. As nomeações já começaram a ser publicadas no Diário Oficial da União e quem estreou a lista foi o Progressistas, que ganhou o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs).

Embora o depoimento de Moro à Polícia Federal, no sábado, tenha sido considerado por auxiliares de Bolsonaro como “uma tempestade em copo d’água”, há receio de que a CPI possa jogar mais gasolina na fogueira mexendo nessa história. Além disso, o Planalto se preocupa com o inquérito das fake news. O temor é o de que tanto a CPI quanto o Supremo direcionem sua artilharia para o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o associem à organização das manifestações em defesa da intervenção militar no País. Em conversas reservadas, ministros avaliam que a crise pode se agravar ainda mais se Carlos for à CPI.