O GLOBO – 30/05/2020
GUSTAVO SCHMITT E JOÃO PAULO SACONI
No meio de um grupo de youtubers recebidos pelo presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada, no último sábado, havia ao menos uma integrante que se tornou alvo do inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre fake news e ataques à Corte. O perfil do Twitter da mineira Bárbara Zambaldi Destefani, de 33 anos, que participou do encontro com Bolsonaro, apareceu entre os 11 apontados pelo ministro Alexandre de Moraes como parte de um mecanismo de criação e divulgação de notícias falsas.
Bárbara e outros membros do grupo de youtubers, que costumam ser divulgados pelos filhos do presidente, seguem a mesma cartilha em seus canais: atacam o Supremo Tribunal Federal (STF), a imprensa e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nos vídeos, vários deles também atacam governadores que têm rivalizado com Bolsonaro na pandemia do coronavírus, defendem o uso da cloroquina e apoiam o discurso do presidente contra o isolamento social, o que contraria orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Bárbara conta com 243 mil seguidores no Twitter e mais de meio milhão de inscritos em seu canal no YouTube. Na madrugada da última quarta-feira, horas antes de ser alvo da ação da Polícia Federal (PF), ela escreveu que o Supremo divulgou o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril para prejudicar o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que no encontro chamou os membros do tribunal de “vagabundos” e afirmou que eles deveriam ser presos.
ALERTA FALSO
Ela também sugeriu, em outra ocasião, que eventuais crimes de ministros do STF seriam julgados pelo Superior Tribunal Militar (STM), o que não é verdade. Por prerrogativa da função, os ministros do STF são julgados na própria Corte.
Em 19 de julho, Bárbara republicou um vídeo que a Agência Lupa, especializada na verificação de notícias, considerou falso. As imagens em que um homem aparece se deitando voluntariamente na maca de uma ambulância foram utilizadas por bolsonaristas para sugerir que internações em meio à pandemia estariam sendo infladas. Ao publicar o vídeo, Bárbara escreveu: “Sorria! Você está sendo manipulado”. Ela, no entanto, deixou
de informar a seus seguidores que o vídeo foi gravado no México e mostrava um homem com suspeita de Covid-19, segundo a Lupa.
Em seu périplo por Brasília, além de uma entrevista de quase 1h de duração com Bolsonaro, Bárbara participou de uma live de Bia Kicis (PSL-DF) —uma das parlamentares que será ouvida no inquérito das fake news —e foi ao chá de bebê do blogueiro Allan dos Santos, que aparece num diagrama do inquérito do STF como coordenador do mecanismo de notícias falsas. Na quinta, em seu canal, Bárbara ironizou o inquérito.
—O processo está falando lá que estamos compartilhando ódio. Nós somos organizados? Isso é verdade? Não. Não é. Não somos uma milícia organizada. Quem sabe um dia, né?
Outro comunicador que tomou café com Bolsonaro é Alan Frutuoso, cujo canal conta com 454 mil inscritos e mais de 69 milhões de visualizações. Amigo do vereador Carlos Bolsonaro, Frutuoso fez uma série de ataques contra o STF, no sábado, e disse que o ministro Celso de Mello quis apreender o celular de Bolsonaro.
Na verdade, o que o ministro fez foi encaminhar à Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido de partidos que pediam a apreensão do aparelho, por se tratar de atribuição do Ministério Público Federal (MPF).
O GLOBO procurou os youtubers mencionados, mas não conseguiu contato.
Ontem, Bolsonaro se reuniu no Planalto com o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), outro investigado no inquérito do STF sobre fake news. Garcia deve prestar depoimento à PF na próxima semana.