O ESTADO DE S.PAULO – 08/06/2020
Felipe Frazão
A reunião entre o presidente Jair Bolsonaro e representantes de uma ala da Igreja Católica não se limitou à discussão sobre os interesses dos órgãos de radiodifusão em atraírem publicidade estatal, conforme revelou reportagem publicada pelo Estadão. Na teleconferência, padres e deputados também fizeram lobby para empresários junto ao presidente.
No Brasil há 54 anos, o padre jesuíta norte-americano Edward Doughert, conhecido como padre Eduardo, da Rede Século 21, em Campinas (SP), defendeu que o governo dialogue com empresários interessados em trazer tecnologia agrícola para o País. “Tenho tecnologias que podem ajudar o Brasil. Estou querendo apresentar isso, mas está tudo fechado, a Secretaria de Agricultura. Tenho contatos e investidores dispostos a vir. Se uma tecnologia é aprovada nos Estados Unidos, por que tem de ser aprovada aqui no Brasil fazendo testes também?”
O padre, um dos precursores da renovação carismática no País, também tratou com Bolsonaro de um interesse personalíssimo: reclamou que não consegue um “passaporte” brasileiro que lhe permita “votar”. “Estou frustrado, estou há dois anos pedindo passaporte para ser cidadão brasileiro e não sai.
Por favor, me ajude a ser brasileiro para votar aqui no Brasil”, disse o sacerdote.
O deputado Eros Biondini (PROS-MG), vice-presidente da Frente Parlamentar Católica do Congresso Nacional, também citou o interesse de empresários nos Estados Unidos em investir quantias milionárias no Brasil. Ele disse se tratar de empresários com “alinhamento” ao governo Bolsonaro – e não só da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE).
Biondini e outros parlamentares também defenderam mais recursos para entidades filantrópicas vinculadas à Igreja, que mantém centros de recuperação de dependentes químicos, presos e unidades de saúde. Eles afirmaram que os benfeitores aumentam injeção de recursos nas Santas Casas quando há destinação verba pública por emendas parlamentares e que as entidades são sérias e “não dão problema” na aplicação dos recursos.
Na sexta-feira, dia 5, o deputado Francisco Jr.(PSD-GO), presidente da Frente, disse ao Estadão que a reunião deveria ter ocorrido no ano passado e que discutiria a cobertura de um evento religioso – daí a presença das TVs –, mas acabou sendo adiada e foi agora convocada pelo governo. Segundo ele, não havia uma pauta única combinada. “Eu não faço nenhum tipo de interlocução a partir desses interesses diretos”, afirmou.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de postura mais crítica ao governo, não participou do encontro virtual. Anteontem, a entidade repudiou os pedidos de verbas estatais feitos ao governo pela ala da Igreja.
Biondini se manifestou também por nota após a publicação da reportagem. “Em nenhum momento foi condicionado apoio das emissoras ao governo em troca de verba de publicidade. Tudo muito transparente e legítimo, já que somos católicos e conhecemos bem a lisura e o belo trabalho que esses nossos padres realizam”, escreveu.
A reportagem encaminhou pedido de posicionamento à Rede Século 21, do padre Eduardo Dougherty, mas não havia recebido resposta até a conclusão desta reportagem.