O GLOBO – 07/06/2020

ANDRÉ DE SOUZA E GABRIEL SHINOHARA

Estados e cientistas dizem que governo prejudica combate à doença.

Após o governo restringir a divulgação de dados da Covid-19, cientistas, políticos e secretários estaduais reagiram. A Universidade Johns Hopkins, referência global sobre a doença, interrompeu a contagem dos dados do país. A Câmara e o TCU começam a articular um sistema paralelo para acompanhar a evolução do coronavírus.


As mudanças do governo federal na política de divulgação dos dados sobre a Covid-19 no Brasil — com o anúnciodeumarecontagemde mortos, atraso na publicação das estatísticas e omissão do número acumulado de casos e óbitos —geraram forte reação de gestores de saúde nos estados, de especialistas em virologia, juristas, políticos, órgãos de controle e entidades civis. Para secretários estaduais da área, a “tentativa de dar invisibilidade” às vítimas é “autoritária, desumana e antiética”. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que “a manipulação de estatísticas é manobra de regimes totalitários” e que “o truque não vai isentar a responsabilidade pelo eventual genocídio”.

O estopim para a reação generalizada à redução da transparência do governo no trato da pandemia foi a declaração do futuro secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, à colunista Bela Megale, publicada na edição de ontem do GLOBO. Wizard disse que o ministério vai recontar o número de mortos no Brasil pela Covid-19, sob o argumento de que os dados atuais seriam “fantasiosos ou manipulados”. Para ele, os números estão inflados, já que “gestores públicos, puramente por interesse de ter um orçamento maior nos seus municípios, nos seus estados, colocavam todo mundo como Covid”. Além disso, desde a última quarta-feira, o governo passou a divulgar os dados da doença depois das 22h. Antes, eles eram publicados por volta das 19h. Até ontem, o Brasil acumulava 671.464 casos confirmados e 35.919 mortes (965 em 24 horas), segundo dados levantados pelo G1 junto às secretarias estaduais de saúde. Para além do atraso, o ministério ainda tirou do ar o portal com estatísticas da doença por algumas horas na sexta-feira e, ao retomá-lo ontem, omitiu o total de casos e de mortes dos últimos meses.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde reagiu em nota. Disse que, “ao afirmar que secretários de Saúde falseiam dados sobre óbitos decorrentes da Covid-19 em busca de mais ‘orçamento’, o secretário, além de revelar sua profunda ignorância sobre o tema, insulta a memória de todas aquelas vítimas indefesas desta terrível pandemia e suas famílias”. “Sua declaração grosseira, desprovida de qualquer senso ético, de humanidade e de respeito, merece nosso profundo desprezo, repúdio e asco. Não somos mercadores da morte”, registra a nota.

Além das críticas, o Congresso e o Tribunal de Contras da União (TCU) preparam um sistema paralelo de contabilidade dos números

da doença para garantir que não haja omissão de informações. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), planeja implementar uma contagem alternativa caso o governo não recue.

— Eu espero que o governo federal retome a partir de segunda-feira os dados para que não seja necessária a construção de outro espaço para que a sociedade tenha as informações consolidadas —diz Maia.

A proposta de uma contagem paralela tem apoio no TCU. O ministro da Corte de Contas Bruno Dantas anunciou que cogita “propor ao TCU e aos tribunais de contas estaduais que requisitemos e consolidemos dados estaduais para divulgação diária até 18h”. Na semana que vem, a Câmara deve ainda votar projeto de lei que obriga o governo a detalhar informações sobre o surto de coronavírus no país. A proposta altera lei aprovada em fevereiro sobre o enfrentamento ao vírus. Outra possível reação no Congresso é a convocação de Pazuello para dar explicações sobre as mudanças. Também estánoradarumaaçãonoSTF. —Bolsonaro está desesperado para manipular o número de mortos por Covid-19, que sobe aceleradamente por causa da irresponsabilidade dele. Negararealidadeéregranesse governo — diz o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ), que pedirá a convocação.

BOLSONARO RESPONDE

Ontem, o presidente Jair Bolsonaro comentou a demora na divulgação de dados da Covid-19 no país. No Twitter, ele disse que a medida é “para evitar subnotificação e inconsistências”. “A divulgação entre 17h e 19h, ainda havia risco subnotificação. Os fluxos estão sendo padronizados e adequados para a melhor precisão”, escreveu. No dia anterior, ele respondeu de outra maneira: — Acabou matéria do Jornal Nacional.

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, também comentou a mudança na política da pasta. Em transmissão pela internet do Instituto de Direito Público (IDP), disse que, quando o número de óbitos irrita o governante ao se “agigantar”, é quase uma “atração fatal” maquiar os números. — Nesse caso, não seria uma maquiagem, seria quase como uma plástica transformada da face do indivíduo. Seu ex-número dois no ministério, João Gabbardo dos Reis, afirmou altar experiência à nova gestão: — Não tem sentido fazer essa revisão (das mortes). Ninguém faria um aumento propositado, é impensável. O GLOBO pediu explicações ao Ministério da Saúde sobre a não divulgação dos dados detalhados, e a pasta se limitou a repetir as explicações dadas por Bolsonaro no Twitter. (Colaborou Bruno Góes)

“Afirmar que secretários falseiam dados sobre óbitos insulta a memória de todas as vítimas indefesas desta terrível pandemia”

Conselho Nacional dos Secretários de Saúde, em nota

“Manipulação de estatísticas é manobra de regimes totalitários. (…) Truque não vai isentar responsabilidade por genocídio” _

Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal

“Nesse caso, (mudar os números) não seria uma maquiagem, seria quase como uma plástica transformada da face do indivíduo” _

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde