O GLOBO – 06/06/2020
JOÃO PAULO SACONI
A Universidade Johns Hopkins, referência na contabilidade de estatísticas globais da pandemia de Covid-19, interrompeu ontem a contabilização de novos dados sobre a doença no Brasil, terceiro país do mundo com mais mortos e o segundo em número de casos.
Desde o início da crise sanitária, em março, a instituição americana disponibilizava informações com base nas divulgações feitas pelo Ministério da Saúde e as utilizava para posicionar o país em um ranking de nações afetadas.
O site da própria universidade indica, em um repositório de fontes internacionais utilizado para alimentar sua plataforma, que informações do Ministério da Saúde brasileiro serviam para embasar inserções sobre o Brasil. Não há outra fonte brasileira incluída na lista. Ontem, a pasta excluiu da internet a série histórica de dadossobreapandemiaeretirou do ar números consolidados de casos confirmados da Covid-19, bem como óbitos causados pela doença. Esses eram os dados que a Johns Hopkins, localizada em Baltimore, nos Estados Unidos, utilizava em sua contagem.
CRÍTICAS AO ‘APAGÃO’
O ranking da universidade americana é atualizado diariamente e utilizado como referência em todo o mundo para pesquisadores e meios de comunicação. Procurada, a instituição afirmou que a contagem foi afetada pela suspensão do site do Ministério da Saúde e informou iria restabelecer ao menos a série histórica registrada até a última quinta-feira. Até o fechamento desta edição, a universidade manteve a posição de suspender a contagem, mas fez uma atualização com dados divulgados na sexta-feira. Especialistas ouvidos pelo GLOBO criticaram a decisão do Ministério da Saúde de excluir dados sobre a Covid-19 da internet e anunciar uma revisão nos dados. — Essas medidas somente confundem a população e colocam um manto de desconfiança e desinformação nos dados. Além disso, torna a pandemia brasileira mais confusa para as pessoas. O que precisamos ,agora que algumas cidades estão relaxando o isolamento social e a população está ainda insegura, é de transparência nos dados e melhor apresentação e análise deles — afirma Amilcar Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para o presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), José Luis Gomes do Amaral, o problema não é o anúncio de uma revisão, mas a falta de motivos que justifiquem a medida. — Fazer uma revisão não é ruim. Mas, para mudar a sistemática de contagem, é importante detectar que realmente há erros a serem corrigidos. Mudar o sistema apenas em função de uma especulação pode prejudicar todo um processo de avaliação da evolução da epidemia no país —diz Amaral.
O presidente da APM lembra ainda que outros países já foram criticados por escamotear informações: — É um perigo. Se nosso país incidir em uma situação como essa, será um equívoco — defende Amaral. (Colaboraram Elisa Martins e Renato Grandelle)