O GLOBO – 08/06/2020
DIMITRIUS DANTAS
Sites governamentais desfigurados com mensagens políticas, reaparecimento de hackers que andavam sumidos e o vazamento de dados do presidente da República e seus familiares chamaram a atenção para o crescimento de um fenômeno conhecido como hacktivismo.
O termo, criado pela combinação das palavras hacker e ativismo, designa quem usa seus conhecimentos tecnológicos para atacar alguém ou defender uma causa. Um relatório obtido pelo GLOBO e produzido pela empresa HarpiaTech, que realiza o monitoramento de 1.479 hackers, indica que o período de forte turbulência política no país, nos últimos meses, foi acompanhado de uma explosão de ativismo na comunidade hacker brasileira.
Em maio e junho, foram observados mais vazamentos e outras ações do tipo em redes sociais ou grupos de hackers do que nos cinco meses anteriores somados. Foram 247 menções e ataques ao governo e ao presidente Jair Bolsonaro nos dois meses em comparação a 221 no período anterior.
Para Filipe Soares, da HarpiaTech, os praticantes de hacktivismo no Brasil não possuem grande capacidade técnica, por isso o estrago que podem produzir tende a não ser alto.
—As ações hacktivistas contrárias ao governo Bolsonaro cresceram de forma expressiva nos últimos seis meses com o agravamento da pandemia e da crise institucional. Mas a maioria dos ataques foram realizados contra secretarias estaduais e municípios que possuem nível de segurança cibernética baixo. Demonstra que boa parte do movimento hacktivista não tem capacidade para promover ataques contra alvos sensíveis —explicou .
Éo caso do vazamento de dados de Bolsonaro e de seus filhos, na última semana, publicado pelo grupo“Anonymous” e que virou alvo de investigação do Ministério da Justiça. O caso teve repercussão, mas foi minimizado por especialistas em segurança da informação. Eles afirmam que muitos dos dados já circulam há mais tempo na internet, seja em vazamentos anteriores ou em serviços de proteção ao crédito.
Dados do ex-ministro Sergio Moro e de sua mulher, Rosângela, do governador de São Paulo, João Doria, e da primeira-dama Michelle Bolsonaro também circularam em perfis com repercussão menor.
—Por enquanto, tem muita molecada que nem fazideiado real propósito de uma campanha hacktivista. São pessoas com o linguajar chuqlo, sem conhecimento político —afirma Thiago Bordini, diretor de inteligência da NewSpace.
O fato de os ataques, até o momento, não terem exigido grande capacidade técnica, não diminui seu potencial de causar problemas. Dados do presidente e de sua família podem ser usados por criminosos. Outro ponto que preocupa são os e-mails compartilhados fora do alcance dos serviços de busca na deep web. Pesquisa da NewSpace em 2019 apontou que, por ano, são vazados mais de 1 bilhão de emails e senhas no mundo.