O GLOBO – 05/07/2020
Glauce Cavalcanti
A concentração da audiência e da troca de informação em um oligopólio de plataformas de tecnologia coloca o sistema de comunicação global sob risco, avalia o publicitário Armando Strozenberg que liderou a Euro RSCG/Contemporânea e a Havas no país. Em meio ao movimento de boicote em anúncios ao Facebook, para pressionar a rede social a adotar políticas claras de combate a conteúdo de ódio e informações falsas, ele explica que o dinheiro vai onde está a audiência, em busca do consumidor.
O freio ao discurso de ódio permite discutir essa questão?
Um conjunto de fatores abriu o debate. O fato é que nenhuma das grandes plataformas tecnológicas resolveu seus problemas. E essas fragilidades farão com que elas precisem se abrir ao diálogo, permitem a pressão pela negociação. Puxam uma coalizão que vai se formar contra esse oligopólio tecnológico, diante de tamanho risco.
Como fica a publicidade?
Nenhum anunciante, nenhuma empresa gosta da ideia de consolidação de mídia do ponto de vista da economia de mercado. Porque perde condições de negociação de termos e de valores. E isso também não agrada às agências. Ter três ou quatro grandes players que vão dominar esse debate não é bem visto por ninguém.
Redes sociais:’Todos temem ser o próximo Facebook’, diz ativista por trás de boicote
Quais são os riscos?
Um poderio tão concentrado que é um risco que não se pode correr. Essas plataformas são transplanetárias, o que nunca houve. É uma outra forma de pandemia, que coloca em risco a sobrevivência do sistema de comunicação do planeta. É uma discussão importante, e não apenas a de liberdade de expressão. Nunca tivemos tanta voz e nunca sofremos tanto por termos essa voz.
Qual é o peso dos grandes anunciantes nesse boicote?
As companhias transplanetárias falaram primeiro. Elas têm força para pressionar os gigantes de tecnologia. É pressão de discurso, de imagem, não a financeira. A receita dessas plataformas está pulverizada em pequenos anunciantes. As agências de publicidade também não têm força para travar ou ditar o processo.
Como vê o futuro da comunicação?
Tudo rola em torno da audiência, que é formada de consumidores. O dinheiro vai onde essa audiência está. Daqui em diante, em poucos anos, audiência e consumo vão se juntar em grandes mudanças. E a internet vai crescer muito.