O GLOBO – 30/07/2020

A diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, debateu com os colunistas Natalia Pasternak, Pedro Doria e Cora Rónai e o editor Helio Gurovitz na live ‘Ciência para desenvolvimento’ em comemoração pelos 95 anos do GLOBO. Jornal celebra aniversário com lives ao longo da semana.

Em meio à pandemia, a sociedade convive com um outro grande problema: a chamada “infodemia”, com a disseminação de informações falsas, sobretudo por redes sociais, sobre questões ligadas ao novo coronavírus, medicamentos, entre outros. Nesse ambiente de circulação de informações falsas, no entanto, a salvação contra o coronavírus virá da ciência, com o desenvolvimento de tratamentos e da tão esperada vacina. E da parceria dela com o jornalismo, para separar “o que é ciência e o que não é ciência”.

O assunto foi um dos muito temas discutidos nesta quarta-feira, dia 29 de julho, na live “Ciência para desenvolvimento – A informação a serviço da vida”. O evento, em comemoração aos 95 anos do GLOBO, teve a participação da diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, dos colunistas Natalia Pasternak, Pedro Doria e Cora Rónai e do editor Helio Gurovitz. O jornal promove uma série de debates on-line ao longo desta semana. O debate é uma realização do GLOBO com patrocínio da Light,

Para o editor do GLOBO Helio Gurovitz, uma das explicações para o que estamos vivendo, a “infodemia”, está no descompasso entre as demandas da sociedade e as próprias limitações da ciência.

— Por seu rigor, a ciência raramente dá um grau de certeza absoluta — afirmou Gurovitz. — Existe um choque entre a angústia humana por certezas absolutas e a nossa incapacidade de produzir e fornecer essas respostas com agilidade. Aí aparecem as pseudociências, o aproveitamento político. E a pandemia escancara isso.

A colunista do GLOBO e microbiologista Natalia Pasternak destacou a tão necessária parceria entre jornalistas e cientistas.

— Essa interação dos cientistas com os jornalistas é importante na batalha contra a desinformação — afirmou Natalia. — A parceria se faz necessária para jogar luz na sociedade, mostrar qual informação é baseada em ciência verdadeira e qual é aquela baseada em pseudociência.

‘O apogeu do imbecil’
Para a colunista Cora Rónai, a revolução tecnológica provocada pela internet ampliou o acesso à informação e deu voz a todos, inclusive aos “imbecis”. E o mundo ainda está aprendendo a lidar com essa realidade.

— Antes, para uma pessoa se fazer ouvir, ela precisava passar por uma série de filtros. Passava por um editor no jornal, por uma editora para publicar um livro. De certa maneira, a sociedade tinha um controle sobre o que era dito — disse a colunista. — Agora, foram liberadas essas legiões de idiotas que só soltavam a opinião no boteco e eram imediatamente cortadas.

Mas essas informações falsas circulam em plataformas de internet, controladas por companhias que faturam bilhões de dólares com esse conteúdo. E, na opinião de Gurovitz, elas precisam se responsabilizar sobre esse tipo de conteúdo.

— O charlatanismo está aí há muito tempo — disse Gurovitz. — Esse não é o maior problema. O que se criou foi o veículo para a imbecilidade, que são as redes sociais, que simplesmente fogem da própria responsabilidade.

A opinião é compartilhada por Doria:

—Eu acho que esse é o grande desafio das democracias, o surgimento de oligopólios globais, representados por Google, Amazon e, principalmente, Facebook — destacou o colunista. — Porque essas empresas tomaram o controle da praça pública em inúmeras sociedades.

Além do meio de circulação, existe o produtor do conteúdo, que muitas vezes carrega títulos e posição de confiabilidade, o que confunde ainda mais o público. E a comunidade científica, que deveria conter essa disseminação, muitas vezes são lentas na resposta.

— Tem a desinformação que parte do cara com jaleco branco, que tem títulos e prêmios iguaizinhos aos que estão falando o contrário. Em vez de publicar em periódicos, ele vai no Facebook, no YouTube, divulgar suas posições. Foi o que aconteceu com a cloroquina — afirmou Natália.

Para Jurema Werneck, o momento de crise pode ser aproveitado pela ciência para ocupar o seu espaço e entrar no cotidiano das pessoas:

— A Humanidade está querendo saber como ficar viva. Cientistas estão se debruçando sobre isso para responder a essa questão, não é uma corrida para ver quem tem a verdade, é uma corrida pela vida. É uma oportunidade de levar a ciência para a vida das pessoas, a gente também quer essa resposta.

Desperdício de talentos
A sociedade digital, com as empresas mais bem-sucedidas que estão produzindo riqueza, avançou de maneira irreversível, e o Brasil perdeu o trem da História. Doria, especialista em tecnologia, lembrou de um encontro no Vale do Silício em 2019, que mostrava de forma inequívoca que os negócios que impulsionam a economia são os baseados em ciência e tecnologia.

— É preciso olhar para a população do país, encontrar todo mundo que tem talento para matemática e ciência. Essas pessoas precisam ser muito bem educadas e formadas, elas vão dar musculatura cerebral para qualquer negócio. A quantidade de gente que “jogamos fora” é gigantesca. Cada menino e menina que não tem uma boa educação até os 15 anos é uma pessoa que estamos “jogando fora”.

O editor Gurovitz diz que esse problema já está na mesa há décadas e tem a ver com o sistema educacional, que seleciona, educa e promove talentos, para aproveitar as vantagens comparativas. Para ele, esse sistema não existe no Brasil, o que dificulta que se aproveite as vantagens comparativas do país, como a imensa biodiversidade.

— O Brasil não tem condição de atrair o investimento necessário. O capital não vai apostar no país com a nossa burocracia. A ciência não vai ser produzida aqui, vai ser produzida onde há condições de produzir conhecimento. Se não resolvermos essas questões, o país não vai sair do lugar.

Jurema diz que, no Brasil, há uma produção constante de injustiça e desigualdade, referindo-se à fala de Doria, sobre o país que desperdiça talentos, ao não investir fortemente na educação de jovens:

— O quão terrível é jogar gente fora. A cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil. Esse é o limite de jogar fora, não é só o potencial, mas de vidas. Essa máquina de produzir exclusão é muito burra.

Falta de incentivo
Natalia reclamou da falta incentivo fiscal para o desenvolvimento de start-ups de biotecnologia e das parcerias entre a indústria e as universidades. Há produção científica de qualidade nas universidades brasileiras, afirma a microbiologista, mas elas ficam no papel, não há um ecossistema preparado para que essas empresas floresçam:

— A ciência no Brasil existe, mas ela morre no papel, na publicação. Nossas publicações são de excelência. É ciência de ponta, mas ela não se transforma em produto, em parceria com a indústria.

A colunista também diz que falta filantropia na ciência no Brasil. Cora completou esse pensamento, afirmando que a cultura no Brasil sempre foi anticiência. Segundo ela, o sistema tributário é hostil para doação para as universidades no Brasil .

— O que houve de gente querendo doar… As nossas leis são tão idiotas que não permitem que isso aconteça. Temos que tratar o Brasil como paciente terminal. Está doente em todos os lados.

Cora lembrou que, na explosão da informática, o Brasil fez reserva de mercado e a ciência só avançou com “contrabandistas”. Ela se preocupa com a fuga de cérebros do país. Uma população jovem e muito bem formada que está indo embora do Brasil:

— Meu próprio filho é uma dessas pessoas, que tem uma empresa de software no Texas.

Jurema destacou que, apesar de todo o conhecimento sobre a brutal desigualdade brasileira, sem acesso universal ao saneamento básico, à internet, não se levou em conta essa situação de vulnerabilidade de parte da população ao combater a pandemia:

— Vimos as filas na Caixa de quem não conseguiu usar o aplicativo. Sabemos que boa parte da população não tem acesso a internet e celular.

Impacto econômico
Doria levantou a questão sobre as várias dimensões da desigualdade: do acesso à informação; do impacto econômico como consequência de um nível educacional baixo, o que prejudica a nossa capacidade de gerar riqueza; e do acesso ao tratamento de saúde de qualidade:

— A boa medicina, os bons médicos, a medicina de ponta demoram a chegar às periferias,  às favelas.

Jurema Werneck afirmou que, apesar do conhecimento sobre as nossas condições sociais, não se levou em conta essa configuração habitacional ao se colocar em prática as políticas públicas. A quarentena foi determinada, pedindo que as pessoas ficassem em casa, mesmo sabendo que na periferia há uma parcela da população vivendo em lares insalubres:

— Não se buscou outra solução, como colocar as pessoas em casas salubres. Pede-se para lavar as mãos, mas o Brasil tem falta de saneamento. E a gente já sabia disso. É uma forma de reafirmar a desigualdade.

Quarentena sem condições igualitárias
Ela defende a quarentena como forma de se combater a epidemia, mas com o Estado oferecendo condições dignas de moradia e com possibilidade de isolamento em caso de contaminação.

Natalia lembrou que uma quarentena não pode ser feita sem colaboração. As medidas não podem ser impostas. Não se planejou, ainda, como acolher a população mais vulnerável na pandemia:

— Isso é um esforço da sociedade, coletivo.

A colunista do GLOBO apontou a falha ao não nos planejarmos locais para isolamento:

— Estão fechando os hospitais de campanha que poderiam ser usados para isolar pessoas com casos leves, de pessoas que não têm como se isolar dentro da comunidade.

Gurovitz lembrou experiências exitosas como a de Paraisópolis, periferia de São Paulo, que conseguiu uma área para as pessoas poderem ficar isoladas:

— O poder público foi omisso nessa hora. De certa forma, o governo não está funcionando para população. Ficam preocupados com a reação das pessoas, com que vão dizer, e não com vida real.

Além disso, o editor do GLOBO diz que o Brasil tem dificuldade de pensar coletivamente, “é muito cada um por si”, e cita como exemplo a resistência ao uso de máscara:

— Isso é algo muito complicado na sociedade brasileira e que não tem a ver com classe social ou nível educacional.