O ESTADO DE S.PAULO – 09/08/2020

Daniel Bramatti

Enquanto o jornalismo perde “capacidade instalada” no Brasil, com a redução do tamanho das redações e do volume de conteúdo publicado, governantes em busca de promoção pessoal ocupam as redes sociais e buscam dominar o debate público, sem a mediação que antes era feita pela própria imprensa. As relações entre esses dois fenômenos e as consequências que eles trazem para a democracia são o pilar central do recém-lançado livro Jornalismo em Retração, Poder em Expansão – A Segunda Morte da Opinião Pública.

De autoria de Ricardo Gandour, diretor executivo da Rede CBN e ex-diretor de Conteúdo do Grupo Estado, a obra é a primeira a quantificar a crise dos jornais no País, em termos de perda de mão de obra e de páginas impressas. Pesquisa que fez parte da dissertação de mestrado do autor na Universidade de São Paulo (USP), cuja amostra incluiu veículos que concentravam 60% da circulação nacional, mostrou que oito em cada dez jornais tiveram redução no número de profissionais entre 2007 e 2016. Somente 13% e 3%, respectivamente, relataram ter mantido ou aumentado o número de jornalistas em atividade.

A pesquisa também monitorou a atividade digital dos governadores – tomando-os como representativos do universo político – no Facebook em três períodos distintos. Entre 2013 e 2016, o número de governadores ativos na rede social passou de 16 para 25. O número médio diário de posts por governador subiu 91% no mesmo período. Para Gandour, políticos passaram a usar a plataforma como “uma espécie de diário não oficial, ou oficioso”.

Retração. “Não se trata apenas de mera inversão de papéis, mas de uma perda de terreno da imprensa no seu papel de mediadora e organizadora do ambiente informativo”, escreveu o autor. “Terreno cedido à conexão direta entre a fonte – no caso, os governos – e os interessados – os cidadãos, público em geral.”

Esse contexto, para Gandour, faz com que os detentores do poder político desqualifiquem a imprensa e ampliemos ataques aseu papel fiscalizador.

“Além de acelerarem o uso ostensivo das redes sociais como forma de comunicação direta, os governantes brasileiros passaram, ao mesmo tempo, a atacar a imprensa estabelecida quando da publicação de informações incômodas.”

Outra consequência da comunicação direta, sem mediação, é a existência de incentivos para que os governantes atuem para agradar à parcela de sua base eleitoral mais engajada e estridente, ou seja, a mais radical. “A inversão de papéis entre imprensa e redes sociais, ou na busca da manutenção do poder, aumenta a intolerância e a polarização”, afirma Gandour.

Ao abordar o fenômeno das notícias fraudulentas, as chamadas fake news, Gandour observa que seus difusores procuram imitar o formato dos conteúdos da imprensa, sem, no entanto, levar em consideração o método jornalístico.

“É o método estruturado que dá corpo e trilho para que a atitude jornalística se transforme e resulte em algo de interesse público, e sobretudo palatável ao público”, diz o texto. “É a prática do método que diferencia um texto jornalístico de um não jornalístico. É o ‘contém jornalismo’ o fator de distinção entre um conteúdo qualquer e um conteúdo jornalístico.”