O ESTADO DE S.PAULO

Após atos antirracistas pelo mundo, instituição avaliará obras do acervo tidas como ‘ofensivas’.

Museu revisará coleções após auditoria sustentar que exposições de Charles Darwin (foto), incluindo sua viagem à América, podem ser vistas como colonialistas e ofensivas.

OMuseu de História Natural de Londres, um dos mais tradicionais do mundo, começou a fazer uma revisão de sua coleção após uma auditoria interna alertar que exposições do biólogo inglês Charles Darwin, o pai da Teoria da Evolução, poderiam ser vistas como “ofensivas”. A iniciativa virou motivo de controvérsia entre os cientistas. Segundo o jornal britânico

The Telegraph, a iniciativa partiu da própria instituição. O museu deve fazer, segundo a reportagem, uma revisão dos nomes das salas existentes, assim como vai analisar estátuas e coleções que podem ser consideradas “ofensivas”. A decisão é motivada, ainda conforme a publicação, após as manifestações Black Lives Matter e protestos antirracistas que tomaram conta de diversas cidades do mundo neste ano.

Um artigo acadêmico que fala sobre as conexões imperiais ligadas à ciência foi compartilhado com a equipe do museu, de acordo com a reportagem, apontando a relação entre ciência, racismo e poder colonial como fatores inerentemente entrelaçados. O trabalho argumenta ainda que “os museus foram criados para legitimar uma ideologia racista”, e que “o racismo oculto existe nas lacunas entre as exibições” e, como resultado, “as coleções precisam ser descolonizadas”.

Entre as exposições que podem ser revistas está a expedição às Ilhas Galápagos, com o capitão Robert Fitzroy a bordo do navio HMS Beagle, viagem na qual Charles Darwin escreveu importantes manuscritos para sua obra A Origem das Espécies, publicada em 1859.

A viagem foi citada por um curador como uma das muitas expedições científicas colonialistas britânicas. “Sua jornada compartilhada para a América do Sul foi na intenção de permitir um maior controle britânico da região”, aponta o artigo compartilhado com a equipe.

De acordo com o jornal, o diretor do museu, Michael Dixon, afirmou aos funcionários que “o movimento Black Lives Matter tem demonstrado que precisamos fazer mais e agir mais rápido”. Ele propõe, “como primeiro passo”, uma revisão sobre nomenclatura e reconhecimento, pois “uma maior compreensão sobre a diversidade e inclusão são essenciais”.

A diretoria executiva do museu afirmou estar “muito envolvida” com a questão antirracista. Segundo o jornal The Telegraph, a instituição está “desesperadamente” buscando abordar o que alguns funcionários acreditam ser “legados de colônias, escravidão e império”, potencialmente renomeando, reclassificando ou removendo esses vestígios da instituição.

Um dos diretores disse em documentos internos que novas ações tomadas para resolver essas questões alterariam o uso e a exibição das coleções e dos espaços públicos.

Repercussão. O assunto tem criado polêmica nas redes sociais, incluindo uma crítica feita pelo biólogo britânico Richard Dawkins. “Que ridículo. O museu deve ignorar desdenhosamente esse absurdo”, recomendou o cientista.

No Museu Britânico, um de seus fundadores, Sir Hans Sloane, é agora tratado como um escravista – ele tinha escravos na Jamaica. Sua estátua foi tirada de um pedestal, em agosto, e relegada a um armário numa sala interna. As espécies de flora reunidas por Sloane constituem grande parte da coleção da instituição – mas conjuntos de itens desse acervo também poderão ser revisados.