O projeto Vale Vivo 24h, uma plataforma e aplicativo jornalísticos que monitoram, em tempo real, a reconstrução do Vale do Taquari após as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, mudou a dinâmica da redação e ampliou o alcance do Grupo A Hora, um dos mais de 100 associados da ANJ.
As transmissões de mais de 20 câmeras passaram a concentrar a maior parte da audiência em vídeo dos veículos do grupo, com conteúdo aberto e foco em utilidade pública. A iniciativa também ampliou a cobertura em municípios com pouca presença de imprensa local, reduzindo lacunas de informação na região.
Todos esses impactos deram ao projeto reconhecimento internacional, com a conquista, na quarta-feira (15), em Bogotá, na Colômbia, do prêmio de Produto Digital Mais Inovador, na etapa Américas do Digital Media Awards 2026, da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias (WAN-IFRA).
Com câmeras instaladas em pontos críticos, análise de dados públicos e participação da população, o projeto consolidou um modelo de cobertura contínua da reconstrução. As transmissões ao vivo, combinadas com dados e relatos da comunidade, ampliaram o acesso à informação em dezenas de municípios e passaram a orientar a produção de reportagens nos veículos do grupo A Hora.
Os dados de audiência indicam expansão consistente. No primeiro trimestre de 2026, o Instagram do projeto registrou alta de 83,9% em visualizações, aumento de 354,9% no alcance, crescimento de quase 10% no número de seguidores e avanço de 94,9% nas interações. No YouTube, o período concentrou três dos quatro melhores meses de audiência dos últimos 12 meses, todos acima de 90 mil visualizações, com a melhor sequência da história do grupo. As transmissões das câmeras já respondem por mais de 75% da audiência em vídeo. No aplicativo, o número de sessões cresceu 54,1% nos últimos 90 dias.
Criado após as enchentes devastadoras que afetaram 478 das 497 cidades do estado, causando alagamentos, inundações e deslizamentos de terra, o projeto foi estruturado para acompanhar obras, recursos públicos e áreas de risco de forma permanente.
“A iniciativa foi adiante com financiamento internacional que a gente conseguiu. O International Fund for Public Interest Media bancou o projeto desde o início. Graças ao IFPIM, o projeto existe da forma como está hoje e crescendo”, conta o jornalista e consultor Eduardo Tessler, que idealizou o projeto e representou o Grupo A Hora no evento da WAN-IFRA.
A operação se baseia em três eixos: monitoramento por câmeras, análise de dados e participação da população. O aplicativo organiza o conteúdo por município e cobre as 38 cidades do Vale do Taquari, além de localidades do entorno. Cada cidade reúne transmissões ao vivo, imagens armazenadas para a redação por até sete dias, notícias e informações sobre obras e recursos. “O aplicativo tem uma separação por cidades, para todos os municípios do Vale e mais algumas em volta”, diz Tessler. A redação recupera os vídeos e usa esse material como base de reportagens, enquanto o público acessa imagens ao vivo e conteúdos publicados pelos veículos do grupo.
As câmeras estão concentradas em pontos estratégicos, como margens de rios e áreas com histórico de alagamento. “A gente não consegue monitorar 100% do Vale, mas monitora os rios principais e os gargalos.” Hoje, mais de 20 equipamentos estão em operação, com previsão de expansão para cerca de 30.
A execução enfrenta limitações operacionais e técnicas. “Já aconteceu de rato comer cabo, de arrancarem câmera, de equipamento estragar”, afirma. Plataformas digitais também impõem restrições. “O YouTube permite só dez câmeras por marca, então a gente precisou distribuir em várias.” Em alguns casos, há entraves locais. Em Estrela, uma câmera foi retirada após impasse com a prefeitura.
Além das imagens, o projeto monitora dados financeiros ligados à reconstrução. A equipe acompanha receitas e despesas públicas e cruza essas informações com a apuração de campo. “Os dados englobam informações financeiras, referentes a receitas e despesas”, afirma Tessler. O material orienta reportagens e permite acompanhar o andamento de obras e a aplicação de recursos.
Mesmo com uso de tecnologia, o projeto não se baseia em estrutura avançada. “Não é um projeto tecnologicamente avançado. Usa ferramentas disponíveis e se destaca pela abordagem jornalística.” As imagens captadas geram conteúdo exclusivo e permitem acompanhar obras com precisão, incluindo registros contínuos da evolução de construções. “E o reconhecimento internacional mostra que estamos no caminho certo”, afirma Tessler.
A premiação ocorreu durante o encontro da WAN-IFRA, realizado na capital colombiana, que reúne empresas jornalísticas e profissionais das Américas para discutir inovação, modelos digitais e o uso de tecnologia no setor. O jornal O Globo, o portal UOL, associados da ANJ, e o site A Redação, de Goiás, também foram premiados.
Digital Media Awards Americas 2026
A edição reuniu 116 projetos de veículos das Américas e reconhece iniciativas em produtos digitais, audiência, inteligência artificial e modelos de negócio. Os vencedores avançam para a etapa global, o Digital Media Awards Worldwide.