Por Marcelo Rech, presidente-executivo da ANJ

O Ministério da Saúde Mental Plane­tária adverte: desinformação é mortal. O último massacre desinformativo ocorreu no fim da semana passada no Mediterrâneo. Como um posfácio da frustrada tentativa de invasão de Ceu­ta, mais de 70 corpos, em sua maioria de jovens, foram retirados das águas porque a fake news de que refugia­dos chegados pelo mar teriam abrigo automático na Espanha se propagou em alta velocidade por redes sociais e grupos de mensagens.

Os mais de 80 mil marroquinos que se lançaram ao mar acreditaram piamente na versão distorcida de uma resolução da Suprema Corte espanhola. Assim falaram os deuses digitais e ponto final. Para essa massa ingênua e iludida, a Espanha estava aberta e bastaria nadar alguns quilômetros para ter a Europa sob seus pés.

Tragédias como a de Ceuta estão sen­do previstas desde a popularização das redes sociais, de seu confisco por batalhas ideológicas e da combinação do alto consumo de conteúdos digitais sem filtros jornalísticos com técnicas de manipulação cada vez mais sofisti­cadas. O que a invasão de Ceuta traz de novo é que os mais crentes nas sandices costumavam ser idosos desabituados a lidar com o mundo digital. Em Ceuta, ficou demonstrada na prática a conse­quência da tendência flagrada por uma pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford. Agora, 39% dos jovens entre 18 e 24 anos se informam prioritaria­mente pelas redes sociais. É a primeira vez que mais jovens consomem notícias nas redes do que pela imprensa.

Apesar das imitações e das imperfei­ções naturais a um processo sempre dinâmico, o jornalismo profissional tem compromisso com o acerto, não com o erro. Já nas redes, muitos ten­tam ganhar audiência e engajamento a qualquer preço, em uma espécie de va­le-tudo, sem critérios, princípios éticos ou responsabilidade social. Nas redes, apela-se o tempo todo para o senso de urgência ou para teorias de conspira­ção, na linha de “leia isso antes que apaguem” ou de que alguma empresa ou governo não quer que você saiba de algo muito importante. Nesse ambiente obscuro, só você, alguns poucos eleitos e o iluminado que captura sua atenção serão os esclarecidos. O caldo do caos informativo está formado.

No mundo ideal regido pelas inteli­gências artificiais, a informação seria sempre precisa e devidamente produ­zida ou conferida por profissionais do jornalismo. Só que essa matéria-prima está escasseando devido à fragilização dos ecossistemas jornalísticos, que, por sinal, têm seus conteúdos descarada­mente furtados pelos robôs de IA. Sem sustentabilidade, não há imprensa pro­fissional e nem informação confiável. Nesse vácuo, esperemos muitas Ceutas e coisa pior pela frente.

Texto originalmente publicado em Zero Hora
Imagem: Magnific