O GLOBO – 08/08/2020
EURÍPEDES ALCÂNTARA
De todas as notícias recentes sobre a Covid-19, a mais assustadora foi a de que uma em cada seis pessoas ouvidas na Inglaterra e uma em cada cinco nos Estados Unidos se recusariam, por princípio, a tomar uma vacina capaz de oferecer proteção segura contra o novo coronavírus. As pessoas antivacinas fazem parte de um grupo bastante heterogêneo. Tem PhD contra vacina por se negar a injetar no organismo qualquer produto que contenha ou tenha sido produzido com OGMs, os Organismos Geneticamente Modificados. Do lado oposto do espectro, temos, ombreando com eles na trincheira da resistência às vacinas, religiosos radicais que simplesmente negam o poder da Ciência para reverter um “castigo divino”. Uma pesquisa de 2019 feita pela Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic, de Campinas, ouviu 1.000 brasileiros e constatou que 16,5% dos entrevistados desconfiavam de qualquer tipo de vacina, enquanto 4,5% deles declararam ser totalmente contra imunizar seus filhos contra doenças contagiosas.
Fora algum tipo de alergia a componentes de vacinas, não encontro no campo da razão motivos convincentes para alguém se recusar a tomar uma injeção imunizante capaz de deter o avanço da Covid-19. Passa de uma dezena a lista de doenças comprovadamente erradicadas ou controladas pelas vacinas nos últimos cem anos — pólio, tétano, gripes, hepatites A e B, rubéola, sarampo, coqueluche, caxumba, varíola, difteria e pneumonia causada pela bactéria pneumococos. Desnecessário lembrar de quanto sofrimento as vacinas pouparam centenas de milhões de pessoas desde a popularização da imunização em todo o mundo.
Sacha Altay e Camille Lakhlifi, autores de um artigo publicado em março passado no “Journal of Science Communication”, sustentam que a maioria das pessoas contra vacinas e OGMs podem se livrar de seus preconceitos desde que ouçam argumentos e sejam expostas a dados convincentes. Num experimento com 175 voluntários declarados opositores de vacinas e OGMs, Sacha e Camille conseguiram convencer do contrário, em média, 60% deles. Interessante que, quando tentaram a mesma técnica com “terraplanistas”, apenas “um número insignificante” deles abandou a crença absurda. Sintomático. Dizem os autores: “Nosso estudo pode encorajar os cientistas a se engajar mais em discussões com o público”.
Entre as razões comumente apresentadas para alguém se recusar a tomar vacinas ou imunizar os filhos, a mais inaceitável é a que denota egoísmo e descaso com as exigências da vida em sociedade. A afirmação de que “as doenças evitáveis por vacinas foram praticamente eliminadas do meu país, por isso não há necessidade de meu filho ser vacinado” é uma das seis argumentações mais frequentes catalogadas pelo CDC, sigla para Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Egoísmo puro. Quando uma pessoa é ao mesmo tempo doente, com sintomas ou não, e vetor de determinada moléstia contagiosa, sua liberdade individual de descaso com sua situação só pode ser preservada se ela aceitar se privar do convívio público.
No Brasil, a vacinação tornou-se obrigatória por lei em 1990, mas apenas para crianças e adolescentes. A Suprema Corte dos Estados Unidos, na maioria das vezes uma ilha de bom senso em meio a dilúvios de insensatez, estabeleceu há mais de um século, em Jacobson v. Massachusetts, caso julgado em 1905, que “a compulsão de introduzir doenças em um sistema saudável é uma violação da liberdade”. Essa decisão até os dias atuais é o amparo constitucional a que as autoridades de saúde americanas recorrem quando exigem vacinação em massa, especialmente em períodos de pandemia. Perder vidas por falta de acesso a tratamentos e remédios eficazes é um fato da vida para milhões de pessoas despossuídas em todo o mundo. Arriscar a própria vida e a dos outros por desinformação ou preconceito é inaceitável.