O ESTADO DE S.PAULO – 08/06/2020
Pelo menos 403 jornalistas foram espionados para a produção de dossiês antes das cúpulas da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2017, e do G20, em 2018, em Buenos Aires, informou a Agência Federal de Inteligência (AFI), que pediu uma investigação contra o ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019). A lista inclui também jornalistas estrangeiros.
Centenas de acadêmicos, empresários e outras personalidades da sociedade civil também foram investigados. Os dossiês foram achados em três envelopes, com as legendas “2017”, “Jornalistas G20”, “Diversos”, dentro de um cofre no escritório que era ocupado pelo então diretor operacional da área de contrainteligência da AFI.
Segundo a diretora da AFI, Cristina Caamaño, os arquivos incluem “preferências políticas, publicações nas redes sociais, simpatia por grupos feministas ou com conteúdo político e/ou cultural, entre outros”. Os dossiês trazem ainda comentários como “sempre com posições contra o governo”, “ele é muito crítico do governo atual”, “ele mostra sua afinidade pelo peronismo” ou “ele apoia o governo”.
Os perfis dos investigados traziam ainda marcações em verde, amarelo ou vermelho e serviriam, supostamente, para permitir ou não o credenciamento dos jornalistas e meios de comunicação para os dois encontros mundiais econômicos.
Caamaño pediu à Justiça uma investigação do ex-diretor da AFI Gustavo Arribas, da ex-diretora Silvina Majdalani e de vários agentes de inteligência, além de Macri como “responsável por definir diretrizes e objetivos estratégicos para a política nacional de inteligência”.
Macri já é investigado pela Procuradoria Federal desde maio em um outro processo por espionagem de funcionários do governo, empresários, sindicalistas, opositores e artistas. Em 2015, o ex-presidente foi inocentado em um processo por espionagem ilegal quando era prefeito de Buenos Aires, entre 2007-2015. A sentença saiu dez dias depois que ele assumiu a Casa Rosada.