O ESTADO DE S. PAULO – 09/03/2020

Mark Mazzetti e Adam Goldman 

Erik Prince, o fundador da empresa de segurança privada Blackwater, com laços estreitos com o governo de Donald Trump, ajudou a recrutar ex-espiões americanos e britânicos para operações secretas de coleta de informações, que incluíam a infiltração em campanhas de congressistas do Partido Democrata, organizações trabalhistas e outros grupos considerados hostis a Trump, segundo o jornal The New York Times.


Um dos ex-espiões, Richard Seddon, um ex-oficial do MI6, o serviço secreto britânico, ajudou a executar uma operação em 2017 para copiar arquivos e gravar conversas em um escritório da Federação Americana de Professores, um dos maiores sindicatos da categoria no país, em Michigan. Seddon coordenou a ação de uma agente para gravar os líderes locais do sindicato e tentar coletar informações que poderiam ser tornadas públicas para prejudicar a organização.

Usando um pseudônimo diferente no ano seguinte, a mesma agente se infiltrou na campanha da democrata Abigail Spanberger, uma ex-oficial da CIA que se elegeu como deputada pela Virgínia. A agente foi descoberta e demitida.

As operações foram dirigidas pelo Projeto Veritas, um grupo conservador de apoiadores de Donald Trump que ganhou notoriedade por criar situações para filmar e depois editar de forma seletiva conversas informais de jornalistas e executivos sobre política e suas empresas.

O papel de Seddon na operação do sindicato dos professores foi detalhado nos e-mails internos do Projeto Veritas que emergiram numa batalha judicial entre o grupo e o sindicato.

Seddon atualizava regularmente James O’Keefe, chefe do Projeto Veritas, sobre a operação contra o sindicato dos professores de Michigan, segundo e-mails internos do Projeto, marcados por jargões da espionagem e do serviço secreto.

O ex-agente escreveu que “copiou muitos documentos da sala de arquivos” e O’Keefe se gabou de que o grupo conseguiria “uma tonelada a mais de agentes de acesso dentro dos estabelecimentos educacionais”.

Os e-mails se referem a outras operações, incluindo atualizações semanais de casos, além de atividades de treinamento que envolvem “segmentação operacional”. O Projeto Veritas redigiu detalhes sobre essas operações a partir das mensagens.

Tanto o Projeto Veritas quanto Prince têm laços com os assessores e a família de Trump. Não está claro se algum funcionário do governo Trump ou consultor do presidente esteve envolvido nas operações. Mas as ações indicam uma vigorosa campanha privada para tentar minar grupos políticos ou indivíduos considerados contrários à agenda de Trump.

Ex-chefe da Blackwater Worldwide, uma empresa de segurança responsável por inúmeros contratos de prestação de serviços militares para o Pentágono, inclusive o uso de mercenários em ações no Oriente Médio, Prince serviu como consultor informal dos funcionários do governo Trump.

Em 2017, ele se reuniu com autoridades da Casa Branca e do Pentágono para apresentar um plano para privatizar a guerra afegã usando mercenários em vez de tropas americanas.

Jim Mattis, então secretário de Defesa, rejeitou a ideia.

Prince deu seminários e usou ex-espiões para treinar agentes do Projeto Veritas em táticas de espionagem em algum momento da campanha presidencial de 2016. Prince disse que queria que os funcionários do Projeto Veritas aprendessem habilidades como recrutar fontes e conduzir gravações clandestinas, entre outras técnicas de vigilância.

Prince está sob investigação do Departamento de Justiça devido à suspeita de ter mentido para um comitê do Congresso que examina a interferência russa nas eleições de 2016 e por possíveis violações das leis de exportação americanas. No ano passado, o Comitê de Inteligência da Câmara fez uma denúncia criminal ao Departamento de Justiça sobre Prince, dizendo que ele mentiu sobre as circunstâncias de sua reunião com um banqueiro russo nas ilhas Seychelles em janeiro de 2017.

James O’Keefe, chefe do Projeto Veritas, se recusou a responder perguntas, mas chamou seu grupo de “orgulhosa organização de notícias independente” que está envolvida em dezenas de investigações. “Ninguém diz ao Projeto Veritas quem ou o que investigar”, disse.