O ESTADO DE S.PAULO – 25/08/2020

A ameaça feita pelo presidente Jair Bolsonaro a um repórter que o questionou sobre depósitos de Fabrício Queiroz à sua mulher gerou a terceira maior onda de comentários negativos contra ele nas redes sociais desde o início da pandemia, segundo a consultoria Bites.

Segundo o levantamento, que inclui dados atualizados até as 17h30 de ontem, o episódio só ficou atrás da repercussão negativa gerada na prisão de Queiroz, em 18 de junho, e nos dias que se seguiram à ida do presidente a atos antidemocráticos, em 31 de maio.

Nas redes, os apoiadores do presidente tentaram articular uma mobilização de apoio. Mas, até as 17h30 de ontem, publicações que utilizaram as hashtags escolhidas pela base de Bolsonaro para defendê-lo não haviam chegado nem a um décimo do volume alcançado pelas publicações críticas ao presidente, segundo a Bites.

Ontem, perfis bolsonaristas difundiram um vídeo com legenda falsificada para sugerir que o presidente teria sido provocado pelo repórter. O boato acabou impulsionado por diversos blogs governistas.

Os blogs Senso Incomum e Terra Brasil Notícias publicaram textos baseados no vídeo com a legenda falsificada e afirmaram que o repórter teria dito a Bolsonaro a frase “vamos visitar sua filha na cadeia”. O áudio, no entanto, mostra claramente que alguém diz “vamos visitar nossa feirinha na catedral”. Depois de espalhar a falsa versão, as duas páginas se retrataram. O Terra Brasil Notícias, porém, não apagou o conteúdo.

“Realmente é um dia excepcional, em que o Bolsonaro está perdendo nas redes sociais. Ele geralmente consegue reagir mais rápido e com mais intensidade. Dessa vez, não conseguiu”, avalia André Eler, gerente de relações governamentais da Bites.

O analista pondera, no entanto, que o episódio não marca necessariamente uma guinada nas redes contra o presidente. “Apesar dessa derrota, é provável que volte a crescer, como cresce depois que polariza.”

Segundo a Bites, entre anteontem e as 17h30 de ontem, 912 mil publicações repetiram o questionamento feito pelo jornalista a Bolsonaro ou utilizaram as hashtags “#respondebolsonaro”, “#respondepresidente” e “#porradanaonoscala”.

As mensagens foram publicadas por 336 mil usuários – uma mesma conta pode fazer várias publicações.

De acordo com o pesquisador Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudo sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, o movimento iniciado nas redes sociais teve ainda a particularidade de romper a bolha das contas que são tradicionalmente críticas ao presidente e envolver personalidades. “A gente está falando das principais contas de rede social do Brasil. Estamos falando de Anitta, de cantores, de gente do entretenimento. É gente de fora da política. Ao meu ver, (esse episódio) é muito grave do ponto de vista do alcance”, afirma Malini. Segundo ele, publicações foram feitas, em português, de 45 países diferentes.