FOLHA DE S.PAULO – 29/02/2020
Thiago Amâncio
Um grande anúncio da rede social Facebook tapou os famosos retratos da estação Sumaré, na linha 2-verde do metrô de São Paulo. O Metrô diz que a cobertura foi feita para proteger a obra para o Carnaval.
Os retratos estão no local desde 1998 e são obra do artista Alex Flemming. São 22 imagens em cada lado da plataforma no estilo fotos 3×4, sobrepostos por poemas, em um grande painel de vidro, que podem ser vistas de longe por quem passa pela avenida Sumaré.
O anúncio da rede social tapa a maior parte de um dos lados da plataforma —três retratos ficaram descobertos. A propaganda diz que “Existe um grupo no Facebook para você. Somos mais juntos” e faz referência a grupos que comemoram o Carnaval em diferentes cidades do país. O anúncio está no local pelo menos desde a última terça-feira (25) e já começou a ser retirado. A mesma propaganda estava neste Carnaval em painéis nos aeroportos de Congonhas (São Paulo) e Santos Dumont (Rio de Janeiro).
À Folha o artista Alex Flemming disse estar “absolutamente estupefato”. “É um estupro a uma obra de arte pública. É uma falta de consideração com todas as obras de arte pública do Brasil. É uma desconsideração com os usuários do metrô. Eu fotografei exatamente a população anônima de São Paulo. Como é possível que o Metrô ponha anúncios em cima de uma obra de arte, vedando ela?”
Procurado, o Metrô diz que a obra foi coberta para protegê-la durante o Carnaval e que será retirada até 20 de março.
“A obra de Alex Flemming na estação Sumaré foi coberta provisoriamente durante o carnaval justamente para preservá-la e garantir a segurança dos passageiros, além de melhorar as condições de embarque e desembarque ao evitar o acúmulo de pessoas utilizando o espaço da plataforma para ver os blocos na avenida sob a estação. A cobertura foi feita tomando todos os cuidados com a manifestação artística, com a utilização de espumas que a protegem. Até 20/03 a cobertura será retirada”, diz nota da empresa.
Flemming chama de “mentira total” o argumento de que o anúncio foi colocado para proteger a obra, porque a propaganda foi colocada somente de um lado. “É mera coisa para ganhar dinheiro, é caça-níquel. Se fosse para proteger, que fosse sem propaganda e que perguntasse ao artista. É tão absurdo que, quando me mandaram, achei que era brincadeira”, diz.
“O precedente é horroroso. Imagina colocar uma propaganda em cima do ‘empurra-empurra’ do Victor Brecheret, ou da estátua do Duque de Caxias”.