O GLOBO – 16/02/2020

A tragédia já faz quase uma semana. Na madrugada de segunda (10), o estúdio do fotógrafo Bob Wolfenson, na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, ficou coberto por mais de um metro de água depois do temporal que castigou a capital paulista. — Eu nem sei ainda o que perdi do acervo — lamenta Wolfenson, calculando, entretanto, que cerca de 80% do seu acervo não digitalizado, período que pega principalmente a sua produção dos anos 1970 até 2006, possam ter sido atingidos. Na última sexta, circulando entre negativos, cromos e fotos penduradas em um varal, Wolfenson contou que planeja usar essas memórias da destruição em uma futura exposição.


DIÁRIO DA UTI FOTOGRÁFICA

Conhecido por seus retratos —muitos deles premiados —para revistas e publicidade, o fotógrafo tem também registrado em imagens o trabalho de recuperação no estúdio, como uma espécie de diário dessa UTI fotográfica. —Poderia até ter uma instalação com um freezer (na exposição) —diz. O aparelho se tornou peça-chave na luta para salvar negativos e impressões, pois ajuda a interromper a deterioração e evita que o material seja atingido por microorganismos. O primeiro equipamento, comprado por ele no dia seguinte à inundação, já está lotado. Um segundo era instalado no momento da visita do GLOBO ao estúdio. Os pacotes que vão para dentro do freezer são vedados e anotados, e a maior parte ainda nem começou a ser examinada. Para arecuperação, Wolfenson conta com a ajuda de técnicos do Instituto Moreira Salles (IMS), especializado em acervos fotográficos. Após ver publicações do fotógrafo nas redes sociais, Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, ofereceu os serviços da instituição. Desde então, armou-se uma corrida contra o tempo. Entre funcionários do IMS que vieram do Rio para a missão e ajudantes chamados na capital paulista, chegam a trabalhar simultaneamente 13 pessoas. De maquinário, Wolfenson já consegue calcular as perdas em R$ 1 milhão. Impressoras, monitores e equipamentos de iluminação caros elevam a conta. Para essa parte, porém, há seguro. Após o ressarcimento da seguradora, calcula que terá um prejuízo entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, a depender de quantos dias o espaço que aluga para outros fotógrafos e produtores audiovisuais ficar parado. No momento, as paredes e o piso do lugar estão descascados.

Isso, claro, fora o prejuízo da perda da memória. —Estava pensando no acervo como uma aposentadoria para mim e algo para deixar para os filhos —lamenta, contando que as imagens antigas são requisitadas com frequência para compra. Não foi a primeira vez que Wolfenson enfrentou esse tipo de problema. Em 2005, o mesmo estúdio encarou uma enchente. O fotógrafo chegou a passar um dia ilhado no mezanino. Até hoje, não tem a noção exata do que perdeu ali. Acha que foi uma parte menor do acervo, mas se lembra que pelo menos o material de uma exposição inteira feita no Masp foi para o lixo.

— Tenho ódio de mim — resume, ao constatar que deveria ter armazenado o material de outra forma desde o incidente de 15 anos atrás. Uma obra feita na região após a inundação, porém, o animou a continuar alugando o espaço, acreditando que não aconteceria algo parecido de novo. Agora, repensa se seguirá no bairro.

— Na vez anterior, a água atingiu uma gaveta e meia. Agora foram duas e meia — conta, em referência à altura nas estantes metálicas.

CINEMATECA BRASILEIRA

A um quarteirão dali, um cenário parecido pode ser visto em uma das duas sedes da Cinemateca Brasileira. A principal delas, na Vila Clementino, não foi atingida. A da Vila Leopoldina, vizinha de Wolfenson, serve como espaço extra para o acervo. Nos tijolinhos brancos da fachada, há manchas até a altura de um metro. Dentro, funcionários passam usando máscaras e luvas. A reportagem não teve acesso ao local. Ao conversar com um vigilante na porta, foi possível sentir um forte cheiro de umidade. Procurada, a Secretaria Especial da Cultura informou, em nota, que “está sendo feita a avaliação dos danos”. Afirma ainda que as primeiras investigações indicam que foram atingidas apenas cópias de difusão, “sem prejuízo à memória do cinema brasileiro”.