O ESTADO DE S. PAULO – 08/03/2020

Marcelo Godoy

Aliados do governo Bolsonaro incentivam a vinda ao Brasil de uma organização da extrema direita americana que busca desacreditar jornalistas, empresas de comunicação e os gigantes da área de tecnologia. O Projeto Veritas apoia o governo de Donald Trump e ganhou visibilidade ao criar situações nas quais jornalistas são filmados em conversas informais sobre política e suas empresas – que depois são editadas de forma seletiva.

Apoiadores do governo Bolsonaro estão incentivando a vinda para o Brasil de uma organização da extrema direita americana que busca desacreditar jornalistas, empresas de comunicação e os gigantes da área de tecnologia. O Projeto Veritas apoia o governo de Donald Trump e tem como método principal, segundo especialistas, criar situações para filmar e depois editar de forma seletiva conversas informais de jornalistas e executivos sobre política e suas empresas.

Um dos expoentes da militância bolsonarista nas redes sociais, Allan dos Santos, sócio do site Terça Livre, se encontrou há oito dias com executivos do projeto, em Washington, durante o evento Conservative Political Action Conference (CPAC). A conferência reuniu alguns dos principais líderes da extrema direita mundial, como o inglês Nigel Farage (partido Brexit) e o espanhol Santiago Abascal, líder do partido Vox. Allan dos Santos expôs fotos em perfil ao lado deles e tornou público seus contatos com a equipe do Veritas.

O sócio do Terça Livre afirmou ainda que um cineasta iria “fazer uma emissora brasileira se borrar toda em breve”. No dia 29, escreveu sobre o projeto: “Eles usam câmeras escondidas para desmascarar os jornalistas comunistas. Quando teremos algo assim no Brasil?” O Projeto Veritas compartilhou uma publicação de Allan dos Santos com críticas ao Twitter.

Outro que apoiou trazer as ações do Veritas para o Brasil foi o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Defensor do projeto, o filho do presidente Jair Bolsonaro também afirmou que o objetivo é “desmascarar” a atuação do ele chama de “mídia esquerdista”.

O principal método do projeto, segundo especialistas em mídia no Brasil e nos Estados Unidos, é criar armadilhas para jornalistas e executivos de plataformas da internet, a quem acusam de censurar “conteúdo conservador”. Recentemente, o grupo lançou uma campanha para que funcionários de meios de comunicação e de empresas como Facebook, Twitter e Google gravem de forma clandestina seus colegas para denunciá-los.

Criado em 2010, o Projeto Veritas é próximo a Trump – muitos de seus membros se identificam como apoiadores do presidente americano, assim como Eduardo e Jair Bolsonaro. O Estado procurou tanto o fundador do projeto, James O’Keefe, quanto o deputado federal, mas não obteve resposta. Tuítes. Enquanto Allan dos Santos se encontrava com os executivos do Veritas, Eduardo Bolsonaro – que também participava do CPAC – publicava também em sua conta pessoal no Twitter notícias sobre o projeto. Entre os dias 14 e 27 de fevereiro foram quatro tuítes. Em um deles, por exemplo, um vídeo denunciava que apoiadores da campanha do democrata Bernie Sanders defendiam a inocência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pela Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro.

O apoio de Sanders a Lula é informação pública, pois o próprio pré-candidato democrata já defendeu a libertação do petista – que ficou 580 dias preso e foi solto em novembro do ano passado. Eduardo, porém, a tratou como se ela fosse uma revelação do Veritas. Em outra publicação, o deputado confirmou seu desejo de trazer o projeto para o Brasil: “Espero o dia em que tenhamos uma iniciativa como o @Project Veritas”.

“O Projeto Veritas parte de uma visão que, se não é desonesta, e de má-fé é, no mínimo, ingênua sobre um ramo de atividade humana que trabalha com o conhecimento. O que interessa não são as crenças dos jornalistas, mas se eles fazem seu trabalho de forma honesta e se existem critérios de verificação no seu trabalho e no das empresas”, afirmou Marcelo Träsel, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Para ele, o discurso do Veritas pressupõe um jornalismo militante, que concorde com suas ideias. “Por isso desconfiam do jornalismo profissional”, concluiu.

Para Sérgio Lüdtke, editorchefe do projeto Comprova, especializado em checagem de fatos, a transparência é o único caminho, o único antídoto contra as ações que buscam desacreditar a mídia. “A única forma de lidar com a desinformação é com mais transparência.” De acordo com Lüdtke, qualquer ataque à imprensa é um ataque à democracia. “Mas há coisas que podemos e devemos ouvir e entender para darmos uma resposta.”