FOLHA DE S.PAULO, O ESTADO DE S.PAULO E O GLOBO – 27/08/2020

Leia abaixo os três textos:

FOLHA DE S.PAULO

Presidente reconhece que exagerou em declaração passada, mas fica sem responder a questão

Em visita nesta quarta-feira (26) à cidade de Ipatinga (MG), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a atacar a imprensa ao se recusar a comentar os repasses de R$ 89 mil feitos à sua mulher, Michelle Bolsonaro, pelo policial militar aposentado Fabrício Queiroz, suspeito de comandar um esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio.

“Com todo o respeito, não tem uma pergunta decente para fazer? Pelo amor de Deus”, disse o presidente, ao ser questionado pela Folha se falaria desta vez sobre os depósitos de R$ 89 mil na conta de Michelle.

Indagado por um jornalista do jornal O Globo sobre os depósitos, Bolsonaro afirmou “Deixa de ser otário, rapaz” e rebateu perguntando sobre os supostos repasses mensais feitos pelo doleiro Dario Messer à família Marinho, proprietária da Rede Globo.

Segundo a revista Veja, em depoimento no dia 24 de junho, Messer disse que realizou repasses de dólares em espécie aos Marinhos em várias ocasiões a partir dos anos 1990. A família nega qualquer irregularidade.

No último domingo (23), durante uma visita de cinco minutos a ambulantes da Catedral de Brasília, um repórter do jornal O Globo questionou o presidente sobre os motivos para Queiroz e sua mulher terem repassado esse valor para a conta de Michelle.

Após a insistência do repórter, sem olhar diretamente para ele, afirmou: “A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?”.

Amigo do presidente há 30 anos, Queiroz atuou como assessor de Flávio na Assembleia, quando o filho do presidente era deputado estadual. Queiroz está em prisão domiciliar e, assim como Flávio, é investigado sob suspeita dos crimes de peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Na segunda-feira (24), em conversa reservada relatada à Folha, o presidente reconheceu que exagerou na declaração, mas ele ainda não definiu se pedirá desculpas públicas. Ele tratou do assunto com ministros como Fábio Faria (Comunicações) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).

Nas conversas, disse que não pretendia repetir nos próximos dias a retórica inflamada, já que, na avaliação dele, ela poderia prejudicar o anúncio de pautas positivas, como o Renda Brasil.

“Conversei agora com o presidente. Aviso aos torcedores do caos e do conflito diário: perderam. A paz continua”, escreveu Faria nas redes sociais.

Bolsonaro também foi lembrado de que o aumento de sua popularidade ocorreu justamente quando ele adotou uma postura “paz e amor” e deu uma pausa em confrontos diretos com veículos de imprensa e com o STF (Supremo Tribunal Federal).

A declaração do presidente foi avaliada como desastrosa tanto por integrantes da cúpula militar como da equipe econômica.

Para eles, Bolsonaro criou sem motivo uma pauta negativa contra a sua própria gestão em um momento no qual vinha recuperando a sua imagem pública. O ideal, na opinião de assessores do governo, é de que o presidente viesse a público pedir desculpas.

Também na segunda-feira, o presidente divulgou em seu canal do YouTube um vídeo que tem sido usado por apoiadores para dizer que o profissional de imprensa teria dito ao presidente “vamos visitar sua filha na cadeia”.

Os simpatizantes de Bolsonaro que divulgaram o vídeo dizem que isso teria motivado a resposta do presidente, sugerindo a agressão física contra o profissional.

O vídeo republicado por Bolsonaro não traz legendas e é intitulado “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!”. Também foi publicado na conta de Facebook do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente e influente na estratégia de mídias sociais do governo.

No vídeo, não consta a pergunta do repórter, mas é possível ouvir a voz de um homem não identificado que diz “vamos visitar nossa feirinha da Catedral?”. Em seguida aparece a resposta do presidente: “Vontade de encher sua boca com uma porrada, tá?”.

O mesmo vídeo foi utilizado mais cedo pelo portal bolsonarista Terra Brasil Notícias. O site, falsamente, identificou a fala desse homem não identificado como sendo a do repórter e indicou, também de forma falsa, que a pergunta tinha sido sobre a filha do mandatário.

Mais tarde, ainda na segunda-feira, o mesmo site publicou uma errata e reconheceu que, no vídeo, não aparecia nem a voz do repórter nem se a pergunta era sobre a filha de Bolsonaro.

QUEBRA DE SIGILO
A quebra do sigilo bancário de Fabrício Queiroz revela novos repasses do amigo de Jair Bolsonaro à primeira-dama Michelle Bolsonaro, segundo mostrou a revista Crusoé no início deste mês.

De acordo com a revista, os extratos colocam em dúvida a justificativa sobre empréstimos apresentada até aqui pelo presidente Bolsonaro. Entre as transações de Queiroz, até o momento se sabia de repasses que somavam R$ 24 mil para a mulher do presidente.

Em entrevistas após a divulgação do caso, Bolsonaro disse que o ex-assessor repassou a Michelle dez cheques de R$ 4.000 para quitar uma dívida de R$ 40 mil que tinha com ele (essa dívida não foi declarada no Imposto de Renda). Também afirmou que os recursos foram para a conta de sua mulher porque ele “não tem tempo de sair”.

Mas, segundo a revista, os cheques de Queiroz que caíram na conta de Michelle somam R$ 72 mil, e não os R$ 24 mil até então revelados nem os R$ 40 mil ditos pelo presidente.

A Folha confirmou as informações obtidas pela revista e apurou que o repasse foi ainda maior. Queiroz depositou 21 cheques na conta de Michelle de 2011 a 2016, no total de R$ 72 mil.

De outubro de 2011 a abril de 2013, o ex-assessor repassou R$ 36 mil à primeira-dama, em 12 cheques de R$ 3.000. Depois, de abril a dezembro de 2016, Queiroz depositou mais R$ 36 mil em nove cheques de R$ 4.000.

A reportagem também apurou que a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, repassou para Michelle R$ 17 mil de janeiro a junho de 2011. Foram cinco cheques de R$ 3.000 e um de R$ 2.000. Assim, no total, Queiroz e Márcia depositaram R$ 89 mil para primeira-dama de 2011 a 2016, em um total de 27 movimentações.

A quebra de sigilo atingiu a movimentação financeira de Queiroz de 2007 a 2018. Nesse período, porém, não há depósitos de Jair Bolsonaro na conta do ex-assessor que comprovem o empréstimo alegado. Assim, se o empréstimo ocorreu depois de 2007, foi feito em espécie.

 

O ESTADO DE S.PAULO

Bolsonaro volta a atacar imprensa ao ser questionado sobre depósitos de Queiroz a Michelle
    
Leonardo Augusto*, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

IPATINGA, MINAS GERAIS – Durante cerimônia de reativação do alto-forno da Usiminas, em Ipatinga, o presidente Jair Bolsonaro voltou a se irritar e xingar repórteres ao ser questionado sobre os depósitos feitos na conta bancária da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, pelo ex-assessor de Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz e sua mulher, Marcia Aguiar. Por três vezes, chamou o jornalista de O Globo, que cobria a viagem, de “otário”. Outros jornalistas também fizeram a pergunta, que não foi respondida. Os valores na conta da primeira-dama somaram R$ 89 mil. Bolsonaro retrucou fazendo perguntas sobre movimentações financeiras da família Marinho, proprietária do jornal.

A pergunta de um repórter do jornal Estado de Minas, que questionou se Bolsonaro havia se arrependido de ataques anteriores a repórteres, foi classificada de “indecente”. Antes dos novos ataques a jornalistas, feitos durante entrevista coletiva ao longo de gradis que o separavam dos repórteres, o presidente abriu o discurso no fim da manhã em cerimônia na Usiminas também criticando os meios de comunicação.

“O dia em que eu for elogiado pela imprensa, podem saber que o Brasil está indo mal”, disse. Sem máscara, ele voltou a causar aglomeração ao posar para fotos com funcionários dentro do empreendimento. Ipatinga é a terceira cidade de Minas em número de casos de covid-19, com 7.031 diagnósticos para a doença, segundo boletim divulgado nesta quarta-feira, 26, pela Secretaria de Estado de Saúde.

No evento, Bolsonaro também admitiu haver relação entre o auxílio emergencial dado à população de baixa renda durante a pandemia do novo coronavírus e o aumento de sua popularidade nos últimos meses. “O povo reconhece e sabe um dia tem um fim. Agora, é o tal negócio. Passamos tantos problemas no passado e nenhum outro presidente lembrou do povo para dar uma aspirina sequer”, disse, em viagem a Ipatinga, no Vale do Aço, em Minas Gerais.

Bolsonaro, no entanto, disse que o dinheiro “não é meu”. “É endividamento; por cinco meses demos R$ 600. Pretendemos dar ao final do ano uma importância um pouco abaixo disso”, afirmou. O presidente voltou a dizer que o auxílio custa R$ 50 bilhões por mês e que tem de ter um “ponto final”. Repetiu, ainda, que o valor dos próximos pagamentos ficará entre R$ 200 e R$ 600.

O presidente desembarcou em Minas com quatro ministros. Augusto Heleno (Segurança Institucional), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Braga Netto (Casa Civil) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). No discurso, Bolsonaro disse que em seu governo, pela primeira vez, os ministros foram escolhidos por critérios técnicos. “Assim se para a corrupção na raiz”.

‘Ipatinga, né?’
Bolsonaro e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), participaram da cerimônia de reativação do alto-forno vestidos com uniformes da Usiminas. O equipamento havia sido desligado em abril por causa da baixa demanda por aço depois do início do período pandêmico. O alto-forno 2 também foi paralisado e ainda não há data para retomada de seu funcionamento. O alto-forno 3 foi mantido em atividade. À época, parte dos funcionários, por decisão, entraram em férias coletivas.

Na BR-381, próximo ao Shopping do Vale, na chegada a Ipatinga, uma faixa com a frase “O Vale já é poluído demais. Fora Bolsonaro” foi colocada em um viaduto. Mais adiante, em outra faixa, “Mulheres contra Bolsonaro”. É provável que o presidente não tenha visto as manifestações. A chegada da comitiva ocorreu por outra parte da cidade. Na portaria da Usiminas, um grupo de apoiadores do presidente aguardavam Bolsonaro.

Ao fim da cerimônia, ao se despedir, Bolsonaro tentou mencionar o nome da cidade, mas ficou em dúvida. Ele olhou para trás, onde estavam outros participantes do evento e perguntou: “Ipatinga, né”?.

O GLOBO – 27/08/2020

Bolsonaro se recusa a responder sobre Queiroz e volta a atacar a imprensa em Minas
Presidente disse que não se arrepende de ameaça recente a repórter, mas mencionou que pode ter ‘pisado na bola’
Rayanderson Guerra, enviado especial

IPATINGA (MG) – Três dias após dizer a um repórter do GLOBO que estava com vontade de “encher a boca” dele de porrada, o presidente Jair Bolsonaro se recusou novamente a responder a perguntas de jornalistas sobre os depósitos de R$ 89 mil feitos por Fabrício Queiroz e a mulher dele, Márcia Aguiar, na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Durante cerimônia de religação de um alto-forno na siderúrgica Usiminas, em Ipatinga, no interior de Minas Gerais, Bolsonaro chegou a ser questionado por um jornalista do Estado de Minas se ele se arrependia de ter dito ao repórter que tinha vontade de “encher a boca” dele de “porrada” e de chamar jornalistas de “bundões” . O presidente se irritou com a pergunta, disse que não tinha arrependimento, mas que lamentava se tinha “pisado na bola”.

—  Não tem arrependimento aqui, não. O que eu falei, está falado. Com todo respeito, tem alguma pergunta decente para fazer? Pelo amor de Deus. Ah, você se arrepende? O que está feito, está feito. Lamento se eu pisei na bola.

No mesmo evento, ao ser perguntado pelo GLOBO novamente sobre os motivos que levaram Michelle a receber depósitos de Queiroz e Márcia, o presidente se recusou a responder e atacou o jornalista.

— Você é um otário, rapaz. Otário.

O presidente participou da cerimônia ao lado do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Único aliado de Bolsonaro no Sudeste, Zema mantém o apoio desde as eleições de 2018. O partido Novo tem feito movimentos para se descolar do bolsonarismo após o apoio de ampla parte da legenda à eleição de Bolsonaro. Em maio deste ano, a direção do partido expulsou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, um dos mais fiéis aliados do presidente.

Zema manteve o discurso alinhado ao do governo federal nas ações de enfrentamento da pandemia, diferentemente dos governadores do Rio, Wilson Witzel (PSC), e João Doria (PSDB). Na gestão sanitária de Minas Gerais, Zema adotou, desde o início, a flexibilização das medidas de distanciamento social.

Além do governador de Minas, estiveram presentes na cerimônia, em Ipatinga, os ministros do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio; da Casa Civil, Walter Braga Netto; do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e das Minas e Energia, Bento Albuquerque.