O GLOBO – 20/02/2020

EDITORIAL

O ataque à imprensa profissional e as torpes agressões a Patrícia Campos Mello, jornalista da “Folha de S.Paulo”, são parte de um desejo autoritário de garrotearasinstituições. Nadaép oracas o. A radicalização avança com suporte nas redes, onde atuam milicianos digitais facilmente identificados. Trata-se de um fenômeno, de antes dos nossos tempos, em que autoritários já chegavam ao poder usando os canais da democracia —o voto, a representação popular —para destruir por dentro a própria democracia. Há projetos de poder similares no campo da esquerda.


Na América Latina, existe o caso da Venezuela, em que o caudilho Hugo Chávez chegou ao Palácio de Miraflores pelo voto no final dos anos 1990, conseguiu da Justiça autorização para convocar uma Constituinte, e ali o “Socialismo do Século XXI” começou a destruição do país. Eleições continuaram a ser feitas, apenas como um rito dissimulador para dar ao regime a fachada de democracia.

Mas não há chance deste projeto vingar no Brasil. O jornalismo profissional persistirá no cumprimento de sua missão de informara sociedade, gostem ou não os poderosos.

Vale informar-se sobre o processo de esmagamento da democracia representativa na Polônia de Jaroslaw Kaczynski e na Hungria de Viktor Orbán,es te convidado improvável para posse de Bolsonaro em Brasília. São governos “legítimos” que não param de pregara defesa da família, da religião etc. Bolsonaro e alguns dosseus mi-nistrosves temeste figurino.

Nada contra a defesa da família e da religião, contanto que sejam respeitados o laicismo constitucional do Estado brasileiro, as liberdades de expressão edeim prensa, e todos os demais direitos civisre conhecidos pelo Supremo como constitucionais: aborto do feto anencéfalo, união homossexual.

Deve-se ficar atento quando o Itaramaty adere à Aliança pela Liberdade Religiosa, ao lado dos notórios Polônia, Hungria e Estados Unidos. Com Trump, o Executivo

americano deu uma guinada para a extrema direita.

É impensável não apoiara liberdade de culto. Mas deve-se saber o que esses governos entendem por liberdade religiosa.O presidente Bolso na roco msuasf alas debochadas, mal-educadas, na saída ou entrada de palácio, aplaudido por sua claque, cr iauma atmosfera antidemocrática, acirra o radicalismo.

É neste ambiente que o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, aparece, gravado involuntariamente na manhã de terça, irritado co moque chama de “chantagens” de parlamentares nas negociações sobre os vetos presidenciais à Lei de Diretrizes Orçamentárias. Depois, em uma reunião, Heleno conclamou o presidente a chamar o “povo às ruas” contra o Congresso.

Bolsonaro pediu calma ao ministro. Mas é ele que tem contribuído para este ambiente que já vinha polarizado. Quando o chefe sobe o tom, e até toma atitudes desqualificadas, a tropa acha que é sinal de avançar.