O GLOBO
Ana Rosa Alves
Presidente faz apelo para que comunidade internacional combata o que chamou de ‘cristofobia’, se diz comprometido com o acordo com a UE e elogia Trump
O presidente Jair Bolsonaro abriu, nesta terça, o debate geral da 75ª Assembleia Geral da ONU, realizada virtualmente pela primeira vez em razão da pandemia de Covid-19. O presidente brasileiro dá o pontapé inicial no evento desde 1955. A honra deve-se não apenas ao fato de o país ter sido o primeiro a aderir à ONU, criada há exatos 75 anos, mas ao papel do então chanceler Oswaldo Aranha na história da organização — ele presidiu a primeira sessão especial da Assembleia e a segunda sessão ordinária. Bolsonaro, que participa do evento pela segunda vez, gravou seu discurso na semana passada.
Covid-19
Ao abrir seu discurso de cerca de 15 minutos, o presidente disse estar honrado de abrir os debates da Assembleia em um momento em que o mundo “precisa da verdade para superar seus desafios”. Bolsonaro acusou parte da imprensa brasileira de “politizar o vírus, disseminando o pânico entre a população”. Segundo o presidente, ao defender que a população ficasse em casa, como recomendavam os especialistas de saúde, os veículos “quase trouxeram o caos social ao país”.
O presidente defendeu sua criticada resposta à pandemia, afirmando que, desde o início, alertou que seria necessário lidar com dois problemas, “o vírus e o desemprego”, e que ambos deveriam ser tratados com a mesma seriedade. Segundo ele, medidas de isolamento e “restrições de liberdade” foram responsabilidade dos governadores, cabendo ao governo federal apenas o envio de recursos e medidas “que evitaram o mal maior”, como o auxílio emergencial e a produção da vacina da Universidade Oxford no Brasil.
Segundo o presidente, a pandemia deixa a lição de que deve haver independência na produção de insumos médicos, destacando que apenas o insumo para a fabricação da hidroxicloroquina sofreu um reajuste de 500% no início da pandemia. Não há, no entanto, evidências científicas que comprovem a eficácia da droga promovida por Bolsonaro, que, em outro gesto pouco usual, lamentou as mortes na pandemia.
Amazônia
Bolsonaro disse que o Brasil é vítima de uma “das mais brutais” campanhas de desinformação sobre os incêndios que devastam a Amazônia e o Pantanal, críticas que diz serem baseadas na inveja internacional do agronegócio brasileiro. Defendendo-se das críticas à sua política ambiental, que põem em xeque o acordo econômico entre o Mercosul e a União Europeia, o presidente disse:
— A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil — afirmou, ressaltando que, apesar de o país ter uma das 10 maiores economias do mundo, é responsável por apenas 3% da emissão de carbono.
Erroneamente, Bolsonaro alegou que a floresta, por ser úmida, não permite a propagação de fogo em seu interior. O presidente pôs a culpa dos incêndios nos indígenas e disse estar comprometido com o combate a incêndios criminosos:
— Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas — afirmou. — Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental.
Segundo pesquisadores, parte significativa das queimadas e do desmatamento na Amazônia entre 2019 e 2020 está ligada a médios e grandes fazendeiros e não a pequenos agricultores. O Observatório do Clima, por sua vez, constatou que o Ministério do Meio Ambiente usou apenas 0,4% dos recursos destinados ao combate de focos criminosos entre janeiro e agosto.
‘Cristofobia’
O presidente brasileiro, em um aceno à base evangélica, fez um apelo para que o planeta combata o que chamou de “cristofobia”. O comentário vem um ano após a adesão brasileira à Aliança Internacional pela Liberdade Religiosa, liderada pelos Estados Unidos, que privilegia o combate à discriminação sofrida pelos cristãos, embora o Brasil seja, segundo a Constituição, um Estado laico.
— A liberdade é o maior bem da humanidade. Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia — afirmou o presidente. — O Brasil é um país cristão e conservador e têm na família a sua base. Deus abençoe a todos — disse ainda, ao encerrar seu discurso.
A política externa de Bolsonaro, cada vez mais, ganha adota viés ideológico e conservador, revertendo posicionamentos tradicionais do país. No ano passado, o país enviou uma delegação para participar de eventos promovidos pelo presidente ultraconservador húgaro, Viktor Orbán, onde debateu a defesa do cristianismo e o fortalecimento da família. Na ONU, o país frequentemente busca abafar menções a educação sexual e saúde reprodutiva.
O termo “cristofobia” vem sendo usado há pelo menos dez anos, em especial por denominações evangélicas. De acordo com um estudo do Centro de Pesquisas Pew, de 2019, cristãos e muçulmanos, que formam os maiores grupos religiosos do mundo, são igualmente vítimas de discriminação pelo mundo.
Elogios a Trump
O presidente Jair Bolsonaro demostrou sua solidariedade ao povo libanês, após as explosões que devastaram o porto de Beirute, antes de elogiar a política do presidente americano, Donald Trump, para o Oriente Médio. O brasileiro destacou que a normalização das relações de Israel com os Emirado
Bolsonaro elogiou ainda o “plano de paz a prosperidade” proposto pelo americano para Israel e Palestina, proposta criticada por privilegiar Tel Aviv e não ter contado com a participação palestina em sua elaboração. Imediatamente rejeitado pela Autoridade Palestina, o plano reduz substancialmente o território de um futuro Estado palestino em relação à fronteira anterior à Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
— O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino — disse Bolsonaro, aliado do presidente israelense Benjamin Netanyahu. — A nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região.
A ONU
Crítico do que os movimentos de direita chamam de “globalismo” — expressão usada para se referir a instituições internacionais acusadas de minar soberania dos países e tentar apagar as tradições nacionais —, Bolsonaro adotou um tom mais ameno que o usual. Ele defendeu a necessidade de uma reforma da Organização Mundial do Comércio e, no âmbito da ONU, disse que a “cooperação dos povos não pode estar dissociada da liberdade”. Segundo ele, os príncípios de paz, cooperação e respeito aos direitos humanos já estão na Constituição brasileira e contribuem para “a consecução desses objetivos”.
— Como um membro fundador da ONU, o Brasil está comprometido com os princípios basilares da Carta das Nações Unidas: paz e segurança internacional, cooperação entre as nações, respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais de todos — disse o presidente — Neste momento em que a organização completa 75 anos, temos a oportunidade de renovar nosso compromisso e fidelidade a esses ideais. A paz não pode estar dissociada da segurança.
Bolsonaro ressaltou ainda a participação histórica brasileira em operações de paz e missões similares, incluindo no Canal de Suez, Angola, Timor Leste, Haiti e Líbano, e ressaltou a premiação de duas militares brasileiras por seu trabalho contra a violência sexual na República Centro-Africana.