O GLOBO – 23/02/2020
Depois de passar quase um mês offline, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) fez seu retorno ao Twitter, em dezembro do ano passado, com uma postagem enigmática: um vídeo em câmera lenta de um chef de cozinha turco batendo as mãos cheias de farinha. Entre alfinetadas ao seu estilo bélico na internet, com ataques a adversários políticos ou à imprensa, o filho 02 de Jair Bolsonaro fez dias depois uma crítica direta à comunicação do governo de seu pai, que segundo ele “sempre foi uma bela de uma porcaria”. Ao postar um vídeo com uma entrevista do presidente, disse que “trabalharia umas cinco mensagens facilmente”. Depois, negou querer fazer parte da comunicação presidencial.
Mas desde então, adotou um perfil mais institucional nas suas redes sociais, usando o espaço para defender e propagar feitos do governo.
Das 449 publicações feitas no Twitter desde 8 de dezembro até anteontem, 258 (57,5%) seguiram um padrão de “comunicação institucional”: divulgação de dados do governo, desde o resultado das contas públicas até a produção de motos, passando pelas matrículas em creches e por investimentos em agricultura familiar. O levantamento, feito pelo GLOBO, excluiu dessa conta as publicações que tiveram teor de defesa pessoal do presidente, do seu governo e de ministros (nessa categoria, foram 57 postagens, ou 12,7%). Entretanto, os ataques não cessaram: foram 73 publicações do tipo nesse período (19,3% do total). Entres os alvos favoritos estão siglas de esquerda, o governador paulista João Doria (PSDB), a imprensa e o que Carlos chama de “isentosfera”. Também houve espaço para 21 publicações enigmáticas, como a foto de um dinossauro, vídeos de helicópteros atirando e trechos de apresentações de sertanejos, além de 26 postagens que não entraram em nenhuma dessas categorias. Assim como boa parte da base bolsonarista, Carlos cobra da Secretaria Especial de Comunicação (Secom), comandada por Fabio Wajngarten, uma postura mais combativa e proativa na defesa do governo e do presidente. O órgão, no entanto, guarda limites legais por seu caráter institucional. O vereador tenta rebater alegações de que gostaria de controlar a comunicação. Em 20 de dezembro, após divulgar o total de empregos formais criados no mês anterior, acrescentou: “Obs: Não! Não sou e nem quero ser da Comunicação Presidencial!”. Bolsonaro já atribui sua vitória nas eleições presidenciais a Carlos, por sua habilidade nas redes sociais. Chamado de “pitbull” pelo pai, ele também usou as redes do pai. Em agosto, a Secom criou a SecomVC, página em redes sociais para divulgar ações do governo e combater notícias falsas. Recentemente, a página ganhou notoriedade por postagens contra a diretora Petra Costa, o que gerou dúvidas sobre um possível rompimento do princípio de impessoalidade.
Carlos esteve no Palácio do Planalto recentemente e se reuniu com Fabio Wajngarten. De acordo com um interlocutor, a relação dos dois já está pacificada.