O ESTADO DE S.PAULO – 11/03/2020

Jussara Soares e Tânia Monteiro

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro esteve em viagem aos Estados Unidos, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), morador do Rio, atuou como uma espécie de “vigia” do gabinete do pai, localizado no terceiro andar do Palácio do Planalto. Considerado o mais radical dos filhos, o “02” despachou onde atuam assessores responsáveis pelas redes sociais do presidente, o chamado “gabinete do ódio”.


Este grupo é responsável por produzir relatórios diários sobre fatos do Brasil e do mundo. Bolsonaro cumpriu uma agenda de quatro dias em Miami.

O Estado apurou que Carlos não trabalhou no gabinete do presidente, mas optou por permanecer junto aos assessores Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz. O trio, nomeado na Presidência, atua sob o comando do vereador. Segundo relatos feitos em caráter reservado, Carlos ficou no Planalto para ser os olhos do presidente nas movimentações políticas.

Ele foi visto pela primeira vez no Palácio do Planalto na sextafeira passada, durante a cerimônia pelo Dia Internacional da Mulher, um dia antes do embarque do presidente para Miami. O vereador assistiu a parte do evento do terceiro andar, ao lado de Tércio. Anteontem, recebeu na sede do governo o deputado Hélio Lopes (PSL-RJ).

A presença do vereador no

Planalto ocorreu no mesmo momento em que o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, enfrenta um processo de desgaste em parte do Executivo, entre parlamentares governistas e bolsonaristas nas redes sociais. Na visão do filho do presidente, o articulador político do governo cedeu demais ao Congresso nas negociações envolvendo o controle de parte do Orçamento.

Durante a estada de Carlos em Brasília, a pressão sobre a recém-empossada secretária Especial de Cultura, Regina Duarte, também aumentou. No domingo, em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, ela declarou ser perseguida por uma “facção” do governo. Desde que tomou posse, a atriz passou a ser alvo de críticas de seguidores do guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho.

No Twitter, começaram a circular as hashtags #ForaRegina #ForaRamos. O ministro Ramos é considerado o responsável por levar a atriz para o governo. Para diminuir a pressão nas redes sociais, Ramos condenou a fala da secretária pelo uso do termo. Ao Estado, disse que entrevista “não foi boa.”

A Carlos também é atribuído o cancelamento da nomeação de

Maria do Carmo Brant de Carvalho para a Secretaria da Diversidade Cultural, no fim da tarde de anteontem. Filiada desde 1989 ao PSDB, ela havia sido designada para o posto na sexta-feira por Regina. Carlos teria passado toda a segunda-feira trabalhando para tirá-la do governo. Conseguiu após relatar o caso ao pai. No fi da tarde, em edição extra do Diário Oficial da União, a nomeação foi suspensa.

A presença de Carlos no Planalto, na ausência de Jair Bolsonaro, causa incômodo em integrantes do governo. Esta não é a primeira vez que isso acontece. Em março do ano passado, quando Bolsonaro também estava nos EUA, o vereador esteve na sede do governo. Na época, se reuniu com deputados, dizendo estar cumprindo ordens do presidente.