O ESTADO DE S.PAULO – 02/04/2020
Autoridades de inteligência dos EUA afirmam que a China ocultou a extensão do surto de coronavírus, subdimensionando o total de casos e as mortes causadas pela infecção. A conclusão é de um relatório secreto enviado à Casa Branca e divulgado ontem pela agência de notícias Bloomberg.
Os funcionários que elaboraram o documento pediram para não serem identificados, pois o relatório é confidencial. Eles também não detalharam o conteúdo, mas afirmaram que as informações públicas da China sobre casos e mortes decorrentes da covid-19 estariam intencionalmente incompletas. Duas autoridades disseram ainda que o documento concluiu que os números divulgados pelas autoridades chinesas são falsos.
O surto de covid-19 começou em Wuhan, na Província de Hubei, em dezembro de 2019. Desde então, a China relatou cerca de 82 mil casos e 3,3 mil mortes.
Os EUA, o país mais atingido pela pandemia, registraram 200 mil casos, mais de 20 mil por dia, e 5 mil mortes, em muito menos tempo. À medida que o tempo passa, e aumenta a gravidade da pandemia nos EUA, cresce a certeza de que os números chineses não refletem o tamanho do problema.
Durante semanas, os chineses excluíram as pessoas sem sintomas e somente na terçafeira Pequim começou a adicionar casos assintomáticos ao total. O governo da China alega que antes o foco estava nos pacientes que apresentavam sintomas da doença.
Durante o momento mais agudo da pandemia, a China considerou que os casos assintomáticos seriam de “baixo risco” e não deveriam ser incluídos na contagem dos casos confirmados. Uma vez afastado o primeiro perigo, segundo os chineses, as atenções podem ser voltadas para os pacientes que transportam silenciosamente o coronavírus. Ontem, foram identificados 130 novos casos assintomáticos na China. Há 1,5 mil casos desse tipo, com pessoas isoladas e monitoradas, sendo 205 delas são procedentes do exterior.
O total de pessoas que contraiu o vírus, mas não tem sintomas, é ainda desconhecido.
A decisão de atacar os casos assintomáticos foi tomada em razão dos temores de que haja uma segunda onda de infecções impulsionada por pessoas que não tiveram algum tipo de manifestação clínica. Recentemente, surgiram alguns casos de novas infecções que foram causadas por pacientes “silenciosos”.
Robert Redfield, diretor do
Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, disse acreditar que pelo menos um em cada quatro casos de covid19 seja assintomático. “Pode haver indivíduos sem sintomas contribuindo para a transmissão do vírus. Sabemos que, de fato, eles também transmitem o vírus”, disse Redfield, acrescentando que a instituição está revendo as recomendações sobre o uso de máscaras de proteção.
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, tem pedido à China e outras nações que sejam transparentes com relação às estatísticas. Pompeo já acusou o governo chinês de encobrir a extensão do problema e de ser lento em compartilhar informações com os EUA.