O GLOBO – 12/05/2020
BERNARDO MELLO FRANCO
Desde a campanha, Jair Bolsonaro martela uma passagem do Novo Testamento: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). O presidente levou pouco tempo para mostrar que não leva o versículo a sério. Agora ele usa a Advocacia-Geral da União para travar uma guerra contra a transparência.
A mando de Bolsonaro, a AG U tenta esconder os exames que atestam se ele contraiu ou não o coronavírus. O capitão já havia perdido em duas instâncias judiciais. Na sexta-feira, foi salvo por uma canetada do presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha.
O ministro opinou sobre o caso antes de julgá-lo. Mesmo assim, ignorou pedido do jornal “O Estado de S. Paulo” e não quis se declarar impedido. Não seria o único motivo para isso. Em discurso recente, Bolsonaro se referiu a ele como “um amor à primeira vista”.
Ontem o“Valor Econômico” revelou que uma articulação do governo incluiun apautada Câmara projeto que cria um tribunal federal em Minas Gerais. Oau torda ideiaéo ministro Noronha, mineiro de Três Corações. O amo reavida são feitos de coincidências.
Em outra frente, Bolsonaro tenta manter em sigilo o teor da reunião ministerial de 22 de abril. O encontro foi citado por Ser gio Moro como prova de interferência indevida na Polícia Federal. A AG U já apresentou três recursos para barrara entrega e a divulgação do vídeo.
A ameaça relatada por Moro nãoéoún ico trecho explosivo da fita. Segundo participantes da reunião, o presidente atacou um anotada Polícia Rodoviária Federal que lamentava a morte de um agente pela Covid-19.
Ainda de acordo com os relatos, o chanceler Ernesto Araújo teria feito novos ataques à China. E Abraham Weintraub, o ministro sem educação, teria xingado as mães dos onze juízes do Supremo. Tudo poderá ser esclareci dose o ministro Celso de Mel lo liberara divulgação do vídeo, que será exibido hoje em sessão reservada.
Na semana passada, o decano lembrou que “os estatutos do poder, em uma república fundada em bases democráticas, não podem privilegiar o mistério nem legitimar o culto ao sigilo”. Agora ele pode apresentar ao público as verdades que Bolsonaro tenta esconder.