O ESTADO DE S.PAULO – 20/08/2020
O jornalista Laerte Fernandes morreu anteontem, aos 83 anos, em São Paulo. Ele estava internado desde o dia 26 de junho na Beneficência Portuguesa, na capital paulista, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Laerte integrou a equipe fundadora do Jornal da Tarde. Foi secretário de Redação nos anos 1980, ao lado de Ivan Ângelo e Miguel Jorge, e editor-chefe do JT.
“Cuidava do jornal durante o dia, sempre muito preparado, tinha uma maneira de agir com as pessoas muito afável, conseguia controlar bem tudo na redação, sem nenhuma prepotência, sobretudo na base da conversa. Ele era um homem da redação, sempre foi muito competente”, afirmou Miguel Jorge, que conheceu Laerte em 1963.
Formado em História e em Direito, Laerte ocupou cargos também no Estadão. É lembrado pelas reuniões que organizava em sua casa com jornalistas, políticos, cientistas sociais, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e personalidades do mundo das artes.
Professor de Laerte na graduação em História na Universidade de São Paulo (USP), o historiador Carlos Guilherme Mota disse considerar o jornalista, durante o período da ditadura militar, “uma espécie de farol dentro da noite”. “Se houvesse alguma perseguição, algum desaparecimento de pessoas, o Laerte estava atento e, dentro das possibilidades da época, ele noticiaria. Nos lugares em que eu ia falar – e eu pedia a volta dos perseguidos (pelo regime militar) –, eu sabia que o Laerte tinha destacado algum jornalista para me dar cobertura. E, de fato, eu tinha segurança, porque sabia que, se eu desaparecesse, o Laerte estaria ciente e tomaria alguma providência”, afirmou o historiador.
“Laerte era aquela pessoa conciliadora da redação. Sempre com sorriso pronto e disposto a achar soluções. Tinha um espírito corpo de bombeiro, nunca incendiário”, lembrou o jornalista Mário Marinho, que também foi editor no JT.
Profissão. Educado, polido, didático e competente. Foi assim que a jornalista e professora da USP Cremilda Medina descreveu Laerte em passagem de seu livro Por Trás da Notícia: O Processo de Criação das Grandes Reportagens. Os dois trabalharam juntos na Folha de S.paulo, como colegas de reportagem, e no Jornal da Tarde, na época em que ele era secretário de Redação e ela, repórter policial.
João Paulo Fernandes, filho de Laerte, destacou a paixão que o pai tinha pela profissão de jornalista. “Um dia ele comentou que se esquecia da vida e de problemas pessoais quando ia se aproximando do jornal. Esquecia de tudo e se dedicava ao jornalismo. Ele vivia intensamente isso, foi uma pessoa absolutamente realizada”, afirmou João Paulo. “Era um grande prazer para ele o jornal”, disse a procuradora Márcia de Holanda Montenegro, que foi casada com Laerte por 24 anos.
Além de João Paulo, Laerte deixa as filhas Claudia e Letícia. “Faleceu meu grande e querido pai Laerte Fernandes. Estava hospitalizado e hoje se liberta dos fios e de um corpo que já não podia se comunicar”, escreveu Claudia nas redes sociais.
O velório, seguido de cremação, ocorreu ontem, no Memorial Parque Paulista, em Embu das Artes, na Grande São Paulo.