O GLOBO – 04/04/2020
EDITORIAL
A semana vai chegando ao fim enquanto o presidente Bolsonaro executa alguns contorcionismos para continuara falar par aseus seguidores radicais, simbolizados pela claque que oesperaàport ado Alvorada e pelos grupos de milicianos digitais que atuam nas redes e usam tecnologias para criar seguidores virtuais inexistentes que deem a ideia de um apoio ao ex-capitão maior que a realidade. Na noite de terça, em rede nacional, Bolsonaro assumiu um discurso à altura do cargo, quando pregou a união das instituições e da sociedade para o enfrentamento de uma crise sem precedentes. Infelizmente, o Bolsonaro do pronunciamento durou pouco. Em vez de agir como um verdadeiro líder em um momento difícil que exige sacrifícios de todos, voltou a reagir como parlamentar do baixo clero, cujo alcance da visão se esgota no número de votos que deseja ter na próxima eleição.
E a qualquer maior dificuldade — há e haverá muitas —, volta ao primeiro discurso feito para um nicho de sectários de extrema direita, sem noção real do que se passa dentro e fora do país. O presidente demonstra pavor com a recessão que chega ao país, com os reflexos da crise no seu governo e futuro político. E terminou convencido de que acabar com o isolamento social evitará a crise econômica, tese sem qualquer base técnica. Contraria os médicos, os economistas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e vai em sentido contrário até do presidente que admira, Trump, que teve de decretar o isolamento nos Estados Unidos às pressas, para tentar reduzir o número de vítimas já bastante elevado.
A preocupação com a chegada da crise é justificável. Mas cabe a ele estar à frente do combate às dificuldades. Faz parte das responsabilidades do cargo. Bolsonaro, porém, ao buscar refúgio junto aos seus radicais, o que inclui a família, resolveu ameaçar de demissão o ministro da Saúde, o médico Luiz Henrique Mandetta. Há candidatos conhecidos ao cargo. Mas o problema é outro: o ministro executa um trabalho competente e, por defender o isolamento social, passou a ser alvo preferencial do presidente. Que disse anteontem à rádio Jovem Pan que ele e Mandetta “vêm se bicando já há algum tempo”. Militar, afirmou, no entanto, que não pretende demitilo “no meio da guerra”. Mandetta, por sua vez, afirma que seu compromisso é com o trabalho e já avisou que não pedirá demissão. “Médico não abandona o paciente”. Bolsonaro que assuma o ônus. Pesquisa Datafolha realizada entre quarta-feira e ontem mostrou o tamanho deste ônus: enquanto a aprovação do presidente do final de março a ontem ficou praticamente estável — passou de 35% para 33% —, e a reprovação de sua atuação na crise subiu de 33% para 39%, a avaliação positiva de Mandetta disparou de 55% para 76%. Se há algum plano nas atitudes de Bolsonaro de procurar responsabilizar os outros pelos efeitos da crise, enquanto muda de discurso, ele não está dando certo.