O GLOBO – 05/04/2020
RUAN DE SOUSA GABRIEL
O escritor alemão MarcUwe Kling escreveu a distopia “QualityLand” como se participasse de uma corrida e temesse ser ultrapassado.
— Meu maior medo era que a realidade me alcançasse. E se, na hora de publicar o livro, a realidade já fosse mais distópica do que a ficção que eu escrevi? — disse Kling, numa conversa por Skype com o GLOBO, de Berlim, onde ele está em quarentena, depois de inúmeras tentativas de conexão fracassadas. — “QualityLand” é, na verdade, um livro sobre o presente, só que disfarçado de ficção científica.
Best-seller traduzido para 24 línguas, “QualityLand” será lançado este mês no Brasil pelo selo Tusquets, do Grupo Planeta, e vai virar série da HBO, produzida por Mike Jugde, criador de “Beavis & Butt-Head”. A distopia se passa numa nação ultratecnológica rebatizada de QualityLand por recomendação de uma agência de publicidade. Os sobrenomes também foram abolidos e substituídos pela profissão dos pais na época da concepção.
Em QualityLand, os carros são autônomos e o aplicativo de paquera QualityPartner avisa que é hora de terminar relacionamentos quando os algoritmos encontram parceiros mais compatíveis. A loja The Shop envia para a casa dos clientes produtos que eles ainda não tinham pensado em comprar. Às vezes, os algoritmos erram e os clientes acabam recebendo badulaques que (dizem eles) não desejavam nem inconscientemente.
Um dia, um drone da The Shop entrega ao sucateiro Peter Desempregado um vibrador cor-de-rosa no formato de golfinho. Impedido de devolvê-lo, Peter se une a uma trupe de máquinas defeituosas — como um robô sexual impotente, uma androide-escritora com bloqueio criativo, um tablet comunista — para questionar os algoritmos que regem a vida em QualityLand.
Kling descreve sua distopia como um “coquetel de tecnologia e capitalismo”, mas não é hostil à internet ou às máquinas.
— Ainda sou fã da internet. Lembro quando uma foto demorava meia hora para carregar e ainda assim ficávamos maravilhados por poder enviá-la da Alemanha para os Estados Unidos — diz o autor. — A questão é que não somos nós os clientes do Google e do Facebook. Eles vendem nossa atenção para os anunciantes, que são os verdadeiros clientes. É o modelo de negócios deles. Não é a tecnologia o problema, mas como ela é usada. Tanto que no livro um dos candidatos à presidência é um androide e ele não é um cara do mal.
VERSÕES ‘DARK’ E ‘LIGHT’
Sim, QualityLand está no meio de uma disputa eleitoral. Há dois candidatos: Conrad Cozinheiro, um exapresentador de TV populista e xenófobo, e John of Us, um robô progressista.
King escreveu duas versões de “QualityLand”, uma “light” e uma “dark”. A história é a mesma. O que muda são as propagandas e as notícias intercaladas entre um capítulo e outro. Na versão light, elas são mais amenas; na dark, mais apocalípticas. A edição brasileira brinca com as duas versões. Ao fim de cada anúncio ou notícia, há um QR Code que disponibiliza propagandas e notícias alternativas. O livro traz o anúncio de uma versão hot de “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen. O código leva a uma versão de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, na qual o protagonista desiste do suicídio graças a antidepressivos.
— Queria lançar as duas versões com a mesma capa e deixar os leitores descobrirem que estavam lendo livros diferentes. Mas não deu por conta de dificuldades técnicas —conta. —Minha intenção era mostrar como hoje há mais de uma versão das notícias. Nos EUA, os apoiadores e opositores de Trump leem versões diferentes das notícias. Como vamos discutir se discordamos até sobre as notícias?
Além de escritor, Kling é comediante e podcaster. Ele é autor de quatro livros inspirados no programa de rádio “Neues vom Känguru” (Notícias do canguru), no qual ele, autointitulado um “anarquista fleumático”, discutia assuntos diversos com um canguru comunista.
— Um anarquista fleumático é alguém que não gosta que lhe digam o que fazer e que às vezes prefere ficar em casa vendo Netflix a ir a uma manifestação — explica Kling.
O canguru se transformou em mascote da esquerda radical alemã, e “Die Känguru-Chroniken” (“Crônicas do canguru”, o título dos livros) virou um filme que estreou no dia 5 de março. Ficou apenas uma semana em cartaz, porque os cinemas alemães foram fechados na tentativa de conter a epidemia de Covid-19.
— Foi o pior fim de semana para lançar um filme desde a Segunda Guerra Mundial — diz Kling, que não sabe se o vírus vai permitir a publicação da continuação de “QualityLand”, prevista para outubro.
Kling faz jus ao título de anarquista flemáutico e confessa que hoje tem menos críticas ao governo alemão do que no passado.
— A política alemã me deixava muito infeliz, mas, com a eleição de tantos populistas mundo afora, parecemos até um oásis de estabilidade e sanidade. (Angela) Merkel (primeira-ministra alemã) não faz nada para conter as mudanças climáticas, mas ao menos admite que é um problema, entende?
No começo da entrevista, Kling reclamou que a quarentena o tem impedido de aproveitar os dias ensolarados da primavera berlinense, que chegou mais quente este ano.
— Não tivemos inverno. Foi primavera, verão, outono, mais outono e agora é primavera de novo – afirma. — Para derrotar o coronavírus, o mundo reagiu rápida e radicalmente. Imagino o que conseguiríamos se nos mobilizássemos assim para conter as mudanças climáticas.