O GLOBO – 05/04/2020
EDITORIAL
São 42 milhões de pessoas entregues à loteria da vida na Venezuela e na Nicarágua, porque os ditadores desses países não acreditam na Ciência ou simplesmente resolveram minimizar a pandemia. Festejados por parte da esquerda latino-americana, o venezuelano Nicolás Maduro e o nicaraguense Daniel Ortega lideram cleptocracias que dilapidaram os cofres públicos, abandonaram o sistema público de saúde e mantiveram seus países expostos à ameaça de uma devastação pelo novo coronavírus. Maduro acusou os Estados Unidos de terem desenvolvido e usado o coronavírus como arma biológica contra a China. Depois, travestido de cientista, ordenou o uso de cloroquina “com caráter profilático e por via oral”. Aliou-se a Bolsonaro. Trata-se de medicamento contra malária com fortes contraindicações e de uso restrito, até agora sem qualquer comprovação científica de eficácia contra o coronavírus.
Logo transformou-se em curandeiro, ao entender que o remédio contra malária está escasso e, mesmo em situação normal, seus preços seriam inalcançáveis para a quase totalidade dos venezuelanos, que sobrevivem com menos de US$ 20 por mês. Passou a prescrever um coquetel de ervas, em forma de chá, contra o “parasita biológico”. Para ele, tudo não passa de “uma doença de ricos que viajam e trazem o vírus”.
Atitude diferente adotou seu amigo Daniel Ortega. O ditador da Nicarágua, que foi líder de uma guerrilha de esquerda nos anos 70, resolveu se recolher em casa, em Manágua, desde o último 12 de março, depois de uma reunião com representantes da Organização Mundial da Saúde sobre a pandemia. Ortega se tornou o único nicaraguense isolado. Não sai, nem é visto em público, mas seu governo insiste em estimular passeatas, aglomerações e festas nas ruas das maiores cidades, patrocinadas com dinheiro público e, sempre, em apoio ao regime. Maduro e Ortega integram um clube de ditadores onde, aparentemente, disputa-se um campeonato mundial de ideias delirantes. Dele participam, por exemplo, o bielorrusso Alexander Lukashenko, há 26 anos no poder, para quem a pandemia não passa de uma “psicose” global. Lukashenko tem sugerido que os 9,5 milhões de habitantes da Bielorrússia “envenenem” o coronavírus com 40 a 50 mililitros de vodca ao dia, além de lavar as mãos com a bebida. Já seu amigo Gurbanguly Berdymukhamedov foi além: decretou o banimento do coronavírus do Turcomenistão, que tem 5,7 milhões de habitantes. Proibiu menções à sua existência em publicações oficiais e no que restou da imprensa nacional.