O GLOBO – 08/06/2020
EDITORIAL
Uma das atitudes elogiáveis do Ministério da Saúde, antes mesmo de o Brasil registrar o primei roca sode Covid-19, era a transparência. Em entrevistas coletivas, o então ministro Luiz Henrique Mandetta orientava a população sobre como se prevenir de um vírus que já se anunciava devastador. Com achegada da pandemia, em fins de fevereiro, os informes diários do ministério serviam para divulgar números, traçar um panorama da evolução da doença, fazer projeções sobre o fim da epidemia e desmistificar fake news que contaminavam as redes.
Porém, desde a saída de Mandetta e de seu sucessor, Nelson Teich, ambos por divergências com o presidente Jair Bolsonaro, a transparência se tornou artigo tão escasso quanto respiradores. As coletivas foram esvaziadas, o ministério passou a divulgar os números cada vez mais tarde, e a metodologia das estatísticas foi alterada. Desde sexta, omitiu-se o total de mortos e infectados. No domingo, diante da repercussão negativa do fato, a pasta recuou.
O governo alegou que o atraso e rapara evitar sub notificações e inconsistências. Mas Bolsonaro admitiu que a intenção era impedir que os dados fossem veiculados no “Jornal Nacional ”, da Rede Globo. Alguém precisa avisar ao presidente que manipular números da Covid-19 ou retardara divulgação, para que não entrem no “JN”, é inútil — até porque eles são informados em edições extraordinárias. A manobra não reduzirá o tamanho da tragédia.
A questão se torna mais grave diante do anúncio de que o governo iria recontar o número de mortos. O ex-futuro secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Carlos Wizard, disse que os dados são “fantasiosos ou manipulados ”. Eque estados e municípios inflamas estatísticas para receber mais recursos. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) reagiu com indignação, dizendo que o governo “insulta” a memória das vítimas.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, afirmou, no sábado, numa rede social, que a “manipulação dedado sé manobra de regimes totalitários” eque “o truque não vai isentara responsabilidade pelo eventual genocídio ”.
O Brasil está se tornando uma espécie de pária pelo comportamento de seu presidente e pelo desastroso gerenciamento da crise. Ocultar ou manipular dados sobre a Covid é a to de extrema gravidade. Governos precisam desses números para planejar oc om bateà doença, e a sociedade tem todo o direito de ser informada sobre a pandemia.
Felizmente, as instituições estão funcionando, e tentativas de manipulação não deverão surti refeito. O Câmara, Rodrigo Maia, disseque o corpo técnico da Casa poderia tabular os números junto às secretarias estaduais de Saúde. O TCU também sinalizou que faria o mesmo.
Não há como escapar da realidade. Com mais de 37 mil mortos, e sem ter atingido ainda o pico da epidemia, o Brasil jáéo terceiro país com maior número de óbitos, atrás apenas dos EUA e do Reino Unido. Acada minuto, morre um brasileiro vítima do novo coronavírus. Esconder esses números não fará desaparecer o letal Sars-CoV-2.