PORTAL IMPRENSA – 23/04/2020
Leandro Haberli
Mestre em relações internacionais pela Columbia University de Nova York, o jornalista paulistano Guga Chacra concedeu entrevista por email ao Portal IMPRENSA para falar sobre suas percepções acerca do papel da imprensa na cobertura da pandemia de covid-19.
A conversa, porém, não se limitou a esse único tema. Comentarista de política internacional da GloboNews e da TV Globo e colunista do Globo, Guga falou sobre o clima tenso em Nova York, a rotina de quarentena e até sobre pautas bem mais amenas, como o uso do Twitter como ferramenta de gozação de torcedores de times rivais de seu amado Palmeiras.
Complementando o extenso leque de temas abordados, Guga comentou o papel das emoções na cobertura de uma crise como a atual, fazendo uma espécie de autoanálise de seu choro na edição do dia 15 de março do programa Manhattan Connection. “Se a coisa é natural ou autêntica, não vejo problema em se emocionar”, escreveu.
Portal IMPRENSA – O setor de TV a cabo vinha enfrentando perda de assinantes. Você acha que a cobertura da pandemia por emissoras como a Globonews pode ajudar a minimizar/reverter essa tendência?
As pessoas estão cada vez mais em busca de notícias. No caso da pandemia, elas querem sim uma cobertura séria e confiável. É comum que isso ocorra em situações como a atual. É similar ao que aconteceu no 11 de setembro. Todo mundo quer se informar, porque todo mundo é impactado pela pandemia. É um cenário distinto quando falamos, por exemplo, da guerra da Síria, que teve um enorme impacto local, mas que afetou pouco ou nada o dia a dia dos brasileiros.
Portal IMPRENSA – A TV Globo tem sido acusada por parte da população de fazer uma cobertura do coronavírus excessivamente crítica ao governo Bolsonaro. Como você avalia essas acusações?
A cobertura da TV Globo e da GloboNews busca uma linha científica, ouvindo médicos, infectologistas e epidemiologistas.
Portal IMPRENSA – Qual a principal diferença observada por você entre a imprensa brasileira e a americana na cobertura do coronavírus?
A imprensa americana é muito polarizada. Tem canal que é mais conservador e costuma defender o Trump, e os canais mais liberais, no sentido americano da palavra, que são mais críticos ao governo. Aqui, a GloboNews, por exemplo, tem feito uma cobertura mais didática, levando especialistas para os programas. Está indo muito nessa linha, que é super importante e ajuda a saúde pública. Já na mídia impressa, acho que há muita similaridade entre os dois países. Não vejo grandes diferenças e ambas coberturas têm sido excelentes.
Portal IMPRENSA – A relação tensa entre Trump e a imprensa mudou com o avanço do coronavírus?
Não mudou. Ainda continua em atrito com uma parcela da imprensa, que ele enxerga ser crítica ao governo dele. Por exemplo: New York Times e Washington Post. Ao mesmo tempo, Trump segue firme em uma aliança com outros órgãos de imprensa dos EUA.
Portal IMPRENSA – Como tem sido trabalhar como jornalista a partir de Nova York, epicentro da pandemia nos EUA?
Triste. Moro em Nova York desde 2005. São 15 anos aqui e, claro, virou minha casa. Meus filhos nasceram aqui. Aqui me casei, fiz minha carreira. Tenho um amor muito grande pela cidade e ver o que está acontecendo, saber que todos os dias morrem centenas de pessoa, é algo extremamente trágico. A cidade parou completamente. O que seria a capital do mundo, a cidade mais vibrante de todo o planeta. Ficamos em casa o tempo todo, praticamente. A não ser aquelas pessoas que têm profissões essenciais. A imensa maioria respeita o isolamento.
Nova York já se reergueu outras vezes, foi assim na era da criminalidade, nos anos 70 e 80, se tornando depois uma das cidades mais seguras entre as maiores metrópoles mundiais. E acima de tudo, depois do 11 de setembro. Um ou dois anos depois, a região próxima já estava mais valorizada do que antes do atentado. Então, acho que vai se reerguer. De qualquer forma, é muito triste o que estamos passando aqui e torço muito para que o Brasil e minha cidade-natal, São Paulo, não passem pelo mesmo.
Portal IMPRENSA – Recentemente você chorou ao vivo no Manhattan Connection. Se arrependeu? Como lidar com as emoções numa cobertura como essa?
Não me arrependi, foi um sentimento pessoal. Naquele momento, 15 de março, foi o início da catástrofe que Nova York viveria. Na época, eram menos de 10 mortos. Agora, estamos falando de quase 20 mil. Naquele momento, restaurantes, lojas, academias e escolas estavam abertos, mas eu sabia que esse mundo iria acabar em pouquíssimos dias. Portanto, eu chorei pelo futuro, não pelo presente naquele momento. Eu estava analisando o que iria acontecer, quando muitas pessoas não levavam a sério a gravidade da covid-19. Os jornalistas também são humanos e se identificam com o público em situações extremas como uma pandemia, atentado terrorista ou uma guerra. Se a coisa é natural ou autêntica, não vejo problema em se emocionarem.
Portal IMPRENSA – Qual o papel do Twitter na sua vida pessoal e profissional?
O lado negativo é que fico muito tempo nessa rede social, tempo que eu poderia usar em outras coisas. Mas acho que as redes sociais são muito importantes, pois são um canal direto com as pessoas que acompanham o meu trabalho. Recentemente, cheguei a um milhão de seguidores. Dá para divulgar minhas colunas no jornal O Globo e meus comentários na GloboNews.
Acho importante, já que é o meu trabalho como comentarista internacional, mas também aproveito para outras questões, como interagir e brincar com seguidores. Eu brinco muito com os torcedores dos rivais, já que sou palmeirense. Também aproveito para falar de outras coisas que me interessam bastante e que as pessoas seguem pouco, como história do Oriente Médio e cristianismo oriental.
Existem críticas, mas também tem muito elogio. Eu sempre falo que o Trump, que é a pessoa mais poderosa do mundo, também é a pessoa mais atacada nas redes sociais. Tem os dois lados, é assim que funciona.