FOLHA DE S.PAULO – 23/07/2020 Ana Estela de Sousa Pinto O editor-chefe do maior site noticioso independente da Hungria, Index.hu, foi demitido nesta quarta-feira (22), elevando protestos de entidades de direitos civis sobre a ameaça à liberdade de imprensa no país. Em carta ao conselho de diretores da empresa que o demitiu, Szabolcs Dull afirmou que a liberdade do site está em perigo e que “a Hungria precisa de um jornal onde forças externas não furtivas decidam o que entra no jornal e quem o produz”. “Onde o único objetivo é informar os leitores. Onde não há vontade política ou econômica superior e irreconhecível. Onde você pode trabalhar livremente, independentemente.” A demissão ocorre cerca de três meses depois que o empresário Miklós Vaszily, próximo do premiê húngaro, Viktor Orbán, comprou 50% da Indamedia Network, companhia que controla a publicidade e as finanças do Index. A compra foi anunciada no fim de março, no dia seguinte à aprovação, pela Assembleia, da lei do coronavírus, que deu a Orbán poder para governar por decreto durante a crise de coronavírus —em junho, o Parlamento tirou essa autorização do premiê. Na ocasião, Gábor Horváth, editor de internacional do jornal húngaro independente Népszava, disse à Folha que a operação deveria levar à perda de independência do veículo. Desde que assumiu o poder, em 2010, Orbán aumentou o controle sobre veículos públicos e passou a estimular a compra de meios de comunicação privados por seus apoiadores. “No final de 2018, eles já tinham 80% da mídia húngara. Os que não foram estatizados foram comprados por empresários próximos ao premiê”, afirmou Horváth. No final de junho, o Index passou a indicar no próprio site, por meio de um “barômetro digital”, que sua independência editorial estava em perigo. Os editores se comprometeram com seus leitores a deixar de atuar se perdessem totalmente a autonomia. Na mesma semana, Dull foi suspenso do conselho de diretores da companhia, e o então principal executivo, András Pusztay, renunciou ao cargo. Menos de sete dias depois de tomar posse, seu sucessor, Zsolt Zödi, também renunciou. Em comunicado publicado no site, jornalistas do Index afirmam que o conselho quis obrigar Dull a retornar a agulha do barômetro para a posição verde, indicando independência, sob ameaça de cortar recursos. “O motivo da demissão de Dull foi que ele deixou claro que não cederia à chantagem. Sua demissão é uma intervenção indiscutível na composição de nossa equipe, e só podemos entendê-la como tentativa aberta de pressão”, diz o texto. Os jornalistas afirmam que o presidente do conselho, László Bodolai, atribuiu a demissão a um vazamento, pelo editor-chefe, de documentos sigilosos —”os planos de revisão completa do Index, que nos levaram a colocar nosso barômetro de independência em alerta”, afirma o texto. No começo do mês, Bodolai afirmara que a saída dos executivos não afetaria as operações e a independência do Index. Em entrevista ao Népsava, Vaszily, o novo proprietário da companhia, disse que não era responsável por qualquer mudança no site. Segundo a entidade Repórteres Sem Fronteiras, o controle da imprensa pelo governo húngaro é crescente e, no ano passado, atingiu um nível “sem precedentes em um estado membro da União Europeia”. No ranking mais recente, a Hungria está em 89º lugar entre 181 países, uma queda em relação a 2018. “O acesso à informação é cada vez mais difícil para jornalistas independentes. O acesso a parlamentares ou eventos públicos é proibido ou dificultado para meios de comunicação críticos do governo”, afirma o relatório. “Os departamentos de imprensa de instituições públicas normalmente não respondem a perguntas da mídia independente.”
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