O GLOBO – 12/07/2020
Thomas Traumann
Todo líder político quer se tornar um símbolo. Diga Getulio Vargas e você terá mais pessoas relacionando o nome do presidente gaúcho às leis trabalhistas do que à ditadura do Estado Novo. Juscelino Kubitschek será lembrado pela construção de Brasília, Fernando Henrique Cardoso pela consolidação do Plano Real e Luiz Inácio Lula da Silva pelo Bolsa Família. Se encerrasse o seu mandato hoje, o presidente Jair Bolsonaro ficaria na memória como o corresponsável pelo descalabro no combate à pandemia de coronavírus que ceifou a vida de 70 mil brasileiros. É uma péssima fotografia para a História. O governo sabe disso. Bolsonaro está em busca de uma outra marca.
Na campanha eleitoral bolsonarista, a formulação passível de se tornar eixo do governo era a “Nova Política”, reforçada depois com a incorporação do ex-juiz da Lava-Jato, Sergio Moro. Com as rachadinhas de Fabrício Queiroz, porém, o slogan não engana ninguém. Paulo Guedes vendeu ao mercado o conceito de que este seria o governo da redução do tamanho do Estado, mas a pandemia o obrigou a recolher as teses liberais. Antes, porém, o ministro da Economia detonou o Pró-Brasil, um amontado de obras federais paralisadas que os militares imaginavam que simbolizaria a retomada econômica pós-Covid. Sem opções, o governo Bolsonaro agora busca o apoio dos mais pobres.
Em dois meses, quando o auxílio emergencial acabar, o governo Bolsonaro vai transformar o símbolo das gestões petistas, o Bolsa Família, no programa Renda Brasil. Depois, o governo vai rebatizar o programa habitacional das gestões do PT Minha Casa Minha Vida como Casa Verde-Amarela.
Tentar apagar os nomes dos adversários não é novidade. Quando assumiu o trono do antigo Egito, o faraó Tutemés III (1479–1425 a.C.) ordenou a demolição de estátuas e a erradicação da lista de reis do nome da madrasta, tia e antiga regente Hatshepsute (1542 – 1458 a.C). Rainha por 22 anos quando foi tutora de Tutemés, Hatshepsute foi primeira vítima conhecida da tradição do poder de reescrever a História. Na Roma dos Césares havia um decreto de nome damnatio memoriae para normatizar a destruição da memória de um antigo governante, punição que quase incluiu Calígula (12-41 d.C.). Na URSS de Stalin (1878-1953), fotografias foram retocadas, e os livros, reescritos para eliminar os vestígios de inimigos como Leon Trotsky (1879-1940).
Em tempos mais recentes, os marqueteiros batizaram de “triangulação” a manobra de tomar para si as ideias dos adversários, atraindo junto os seus eleitores. O presidente americano Bill Clinton ficou famoso por isso ao roubar dos republicanos as medidas pró-mercado que levantaram os EUA nos anos 1990. No Brasil, a economia dos primeiros anos do governo Lula foi uma versão mais ortodoxa do tripé fiscal do segundo governo Fernando Henrique Cardoso.
O que está em curso agora na administração Bolsonaro, no entanto, é mais do que uma simples mão de tinta nos letreiros dos projetos de antecessores. A busca por uma marca para Bolsonaro revela o deserto de ideias no Palácio do Planalto.
Eleito por uma coalizão cujo eixo era ser “contra-tudo-isso-que-está-aí”, o governo Bolsonaro é disfuncional. Em 18 meses, o presidente sabotou o sistema público de saúde, transformou o Brasil no vilão ambiental mundial e caminha para a pior recessão da História. Um terço da população segue aprovando o governo, muitos em função do dinheiro no bolso do auxílio emergencial. Mas e quando acabar este programa? Por isso o desespero dos bolsonaristas em arranjar uma marca.
A propaganda sozinha pode enganar muitos por algum tempo, alguns por todo o tempo, mas não todos por todo o tempo. Momento idílico da História do Brasil para o presidente Bolsonaro, o regime militar investiu pesado em propaganda. O conceito de que nos anos 1960 e 1970 vivíamos tempos de Milagre Econômico e de Brasil Grande povoou o imaginário nacional até que o país desabou nos anos 1980, num ciclo de recessão, inflação e a maior dívida externa do mundo. Para a maioria dos brasileiros, a memória que ficou do regime militar foi a da repressão. Com o tempo, Bolsonaro vai descobrir que marcas ajudam na conexão do líder com seus liderados, mas o que faz diferença mesmo é governar bem. Sem isso, a marca que fica será sempre negativa.
*Thomas Traumann é jornalista e foi ministro da Secretaria de Comunicação no governo de Dilma Rousseff sexta 10/10