O GLOBO – 05/03/2020

DANIEL GULLINO E GUSTAVO MAIA

Na manhã em que foi divulgado que o crescimento da economia brasileira no primeiro ano de governo foi menor que nos dois anos anteriores, o presidente Jair Bolsonaro colocou em seu lugar um humorista fantasiado dele mesmo e não quis comentar o resultado da economia. Com terno, peruca e faixa presidencial fake, o humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, oferecia bananas aos jornalistas presentes. Ao lado do comediante, Bolsonaro limitou-se a fingir desconhecer o principal tema do dia:


—PIB? O que é PIB? Pergunta o que é PIB? —respondeu aos jornalistas ao deixar o Palácio da Alvorada, instigando o Carioca a repetir as questões.

O comediante repetiu a pergunta aos jornalistas e acrescentou que o assunto deveria ser tratado com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Bolsonaro sugeriu chamar o ministro de “Posto Ipiranga”, e o humorista repetiu o termo. O presidente, que se divertia com a pantomima, ainda o orientou a pedir outra pergunta, e foi novamente atendido.

Depois disso, a maioria dos jornalistas decidiu se retirar.

Todas as manhãs, quando sai do Alvorada, Bolsonaro cumprimenta apoiadores e eventualmente conversa com a imprensa. Ontem, quando o comboio presidencial parou, quem desceu de um dos carros foi o humorista, fantasiado como Bolsonaro.

Toda a ação foi filmada por um ajudante de ordens da Presidência e transmitida na conta de Bolsonaro numa rede social. Hora mais tarde, o presidente ainda republicou um vídeo do episódio e escreveu: “Bolsonabo no Alvorada!”. O comediante foi perguntado se o presidente havia sugerido entregar bananas a jornalistas, mas disse que era ideia própria.

No fim da tarde, de volta ao Palácio, Bolsonaro respondeu o que achava do desempenho econômico de seu primeiro ano de mandato. Procurou não se mostrar preocupado com a alta de 1,1% do PIB.

—2015, 2016, foi negativo, foi isso? Baixou um pouquinho em relação ao Temer, mas estamos com o melhor semestre desde 2013, se eu não me engano… [perguntando a um auxiliar] Trimestre? Não, semestre… —disse.

Quando foi instado a explicar por que o resultado foi abaixo da expectativa do governo no início do ano passado, respondeu que sempre orienta a colocar “a expectativa o mais baixo possível para não ter esse tipo de pergunta”. Em seguida, foi perguntado se dá para melhorar o PIB em 2020.

—Espero que sim… Apesar do problema do coronavírus, espero que sim —concluiu.