O GLOBO – 30/03/2020

No último dia 20, em uma entrevista coletiva na Casa Branca sobre a pandemia do novo coronavírus, o presidente Donald Trump chamou o Departamento de Estado de “Departamento de Estado profundo”. Atrás deles, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, baixou a cabeça e coçou a testa.

Alguns pensaram que Fauci estava ironizando o presidente, o que levou a uma reação furiosa na internet. No Twitter e no Facebook, um post que o acusava de ser parte de uma conspiração secreta contra Trump foi compartilhado milhares de vezes, alcançando 1,5 milhão de pessoas.

Uma semana depois, Fauci —que é, no governo, o mais firme defensor de medidas de emergência contra o coronavírus —se tornou o alvo de uma teoria da conspiração on-line de que ele está se mobilizando para minar o presidente. Essa teoria se espalhou pelas redes sociais, alavancada por apoiadores de Trump na extrema direita, ainda que Fauci tenha também carreado admiradores por sua disposição de contradizer o presidente e corrigir suas declarações erradas ou excessivamente otimistas.

Uma análise do “New York Times” encontrou mais de 70 contas no Twitter que promoveram a hashtag #FauciFraud, com algumas delas postando até 795 vezes por dia. O sentimento anti-Fauci está sendo promovido por Tom Fitton, presidente da Judicial Watch (Observatório da Justiça), um grupo conservador; Bill Mitchell, apresentador do programa on-line de extrema direita “YourVoice America”; e outros apoiadores de Trump, como Shiva Ayyadurai, que já afirmou, falsamente, ter sido o inventor do e-mail.

Muitas das postagens antiFauci (algumas das quais mencionam uma mensagem elogiosa que o epidemiologista enviou sete anos atrás para Hillary Clinton, quando ela era secretária de Estado) foram retuitadas milhares de vezes. No YouTube, vídeos com teorias da conspiração sobre Fauci foram assistidos por centenas de milhares de pessoas na última semana. Em grupos privados do Facebook, postagens que atacam o especialista foram compartilhadas e curtidas por milhares de pessoas. Uma das mensagens, divulgada na terça-feira, dizia: “Desculpem, progressistas, mas não acreditamos no doutor Anthony Fauci”.

CAMPANHA DE RADICAIS

A torrente de mentiras com o objetivo de desacreditar o epidemiologista é mais um exemplo do fluxo de informação hiperpolarizado que criou um fosso de pensamento entre grupos da sociedade americana. Nos últimos anos, a base de extrema direita de Trump vem regularmente difamando todos que são vistos como opositores do presidente. Ainda assim, a campanha contra Fauci se destaca porque ele é um dos maiores especialistas do mundo em doenças infecciosas e um integrante da força-tarefa criada pelo próprio Trump contra a pandemia.

O governo Trump já demonstrou anteriormente sua má vontade em confiar na ciência, como no caso das mudanças climáticas. Mas campanhas de desinformação durante uma pandemia são especialmente perigosas porque podem promover a desconfiança de autoridades da saúde quando a informação e as orientações corretas se revelam cruciais, disse Whitney Phillips, professor assistente de ética digital na Universidade de Siracusa:

—O que esse caso mostra é que teorias da conspiração podem matar .

‘VOU CONTINUAR INSISTINDO’

O Instituto Nacional de Doenças Alérgicas e Infecciosas não respondeu aos pedidos de comentários sobre a campanha de desinformação dirigida contra Fauci, que pretende continuar trabalhando para conter o novo coronavírus.

—Quando você está lidando com a Casa Branca, às vezes precisa dizer as coisas uma, duas, três, quatro vezes até elas acontecerem — disse o especialista em entrevista recente à revista “Science”. —Vou continuar insistindo.

A campanha on-line é uma mudança abrupta para Fauci, que está no cargo desde 1984 e é visto como uma pessoa com credibilidade por grande parte do público e da imprensa, tendo assessorado presidentes desde o republicano Ronald Reagan.

Nas semanas recentes, boa parte das discussões on-line sobre Fauci foi positiva. Zignal Labs, uma companhia de análise de mídia, estudou 1,7 milhão de menções ao epidemiologista na internet e nas TVs e concluiu que, na maioria das vezes, ele foi elogiado.