O GLOBO – 18/02/2020
A política do governo Trump de evitar que a China domine o mercado de tecnologia está colocando os Estados Unidos em rota de colisão comas próprias empresas americanas que busca proteger.
Companhias especializadas em microchips, inteligência artificial e outros setores estão alarmadas com os esforços envidados pelo governo para restringir o fluxo de tecnologia americana para a China. Elas alertam que isso poderia afastar dos EUA especialistas, pesquisas importantes e receitas essenciais no mercado tech, erodindo a liderança do país.
Os temores das empresas aumentaram depois da revelação de que o Deparamento de Comércio estuda adotar medidas para bloquear transações entre companhias americanas e chinesas.
As novas regras, junto com mais restrições a investimentos chineses nos EUA e outras normas que proibiriam a exportação para a China de certos produtos, além de vedar o compartilhamento de tecnologias, acenderam o alerta na indústria de tecnologia. A General Electric (GE), por exemplo, vende peças de avião à China, em parceria com a francesa Safran.
As medidas de Washington já levaram empresas estrangeiras a descartarem o uso de tecnologias e componentes americanos, por medo de que o acesso a eles poderia ser abruptamente cortado.
PERDA DE LIDERANÇA
Altas autoridades americanas planejam se reunir no próximo dia 28 para discutir novas restrições à China, o que poderia incluir não só sanções à GE, como bloquear o acesso da gigante chinesa de telecom Huawei a tecnologias americanas.
Se, por um lado, há consenso em Washington de que a China representa uma ameaça às e gu rança nacional eque os EUA devem proteger as indústrias locais para manter a liderança tecnológica, por outro a indústria tech americana avisou que limitar o acesso chinês a produtos locais pode prejudicar as empresas e tirar o país da posição de maior núcleo de pesquisa e desenvolvimento do mundo.
Segundo empresários americanos do setor, as companhias não têm escolha senão sediar suas áreas de pesquisa e desenvolvimento fora dos EUA, de forma a garantir livre acesso à China — um mercado consumidor que cresce rapidamente e o centro da cadeia global de fornecimento de eletroeletrônicos.
Com isso, dólares estão indo para centros de pesquisa em lugares como Canadá, Israel e
Reino Unido, entre outros, longe do alcance das restrições do governo Trump.
—Quem pensa que os temores( das empresas) são exagerados deve conversar com os trabalhadores da indústria de semicondutores que já estão perdendo seus empregos com o muro que estão construindo em torno de nosso mercado— diz John Neuffer, presidente da Associação da Indústria de Semicondutores dos EUA. — O faturamento que vem daquele grande mercado (a China)
é o que alimenta nosso forte investimento em pesquisa, que nos permite inovar e fomentar o crescimento econômico americano, bem como a segurança nacional.
RISCO PARA A INTELIGÊNCIA
Enquanto isso, o presidente Donald Trump ameaçou parar de compartilhar informações de inteligência com os países europeus que aceitarem trabalhar com a Huawei no desenvolvimento da rede 5G, afirmou o embaixador americano na Alemanha, Richard Grenell.
Washington está pressionando os países europeus para que não deem acesso a suas redes de telecomunicações 5G à Huawei, pelo temor de que a empresa facilite a espionagem chinesa.
“Trump deu instruções para dizer claramente que qualquer nação que decida utilizar um operador 5G que não seja digno de confiança coloca em risco nossa capacidade de compartilhar informações de inteligência no mais elevado nível”, afirmou Grenell em uma rede social.
O embaixador explicou que Trump fez uma ligação do avião presidencial Air Force One só para transmitir a mensagem.