O ESTADO DE S.PAULO – 07/06/2020

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEMMS) chamou de “tragédia” e de “pior dos mundos” a alteração pelo governo federal da forma de divulgação dos dados de covid-19. “Parece que estão querendo fazer uma cirurgia nos números dos protocolos públicos. Não informar significa o Estado ser mais nocivo do que a doença”, disse Mandetta, em live da faculdade IDP, de Brasília.


Em sua fala, Mandetta também criticou a possibilidade de o País deixar a Organização Mundial de Saúde – como havia sugerido o presidente Bolsonaro na semana passada, nos passos do presidente americano, Donald Trump. Ontem, o Ministério da Saúde passou a restringir as informações disponíveis em sua página na internet que mantém sobre informações a respeito da pandemia. Depois de retirar do ar por um dia, o endereço exibe agora apenas as informações sobre os casos de pessoas recuperadas da doença, novas contaminações e óbitos. Todas as demais informações históricas e dados acumulados foram omitidos.

O ex-chefe da pasta da Saúde desferiu uma série de críticas após ser questionado, na live, especificamente, sobre a restrição das informações. Ele classificou como estratégia política com intenção de “esconder números, manipular os números, não deixar notícias ruins” e disse que isso é prejudicial para o cidadão. “O direito à informação é quase como um direito que ele tem para conseguir se prevenir daquela doença infecciosa, como ele contrai, o que ele pode fazer. O que acontece na sua cidade, no seu bairro, no serviço público, como está funcionado, cada um deles, para que ele possa se portar enquanto cidadão, sabedor dos riscos”, comentou o ex-ministro.

Mandetta criticou diretamente a gestão militar no comando da saúde. “O SUS (Sistema Único de Saúde) não foi conquistado, ele está sendo temporariamente ocupado por pessoas que têm uma excelente formação para o campo militar, mas não têm nenhuma formação para o campo da saúde pública”, disse. “Em guerras, militares são muito acostumados a construir bunkers de segredos inacessíveis. Mas, na guerra contra vírus, a informação compõe a primeira linha de defesa do indivíduo”, afirmou, destacando estar preocupado que os atuais responsáveis por conduzir a saúde possam estar lá apenas “cumprindo missão”. “Se essa missão é se passar por sonegar as informações, colocá-las em horário inacessível, ou rever, torturar os números para que eles confessem verdades que entendam que sejam as que melhor se encaixam para o momento, talvez seja isso que a gente vá presenciar: uma grande noite da ciência”, afirmou.

Fazendo um paralelo, o ministro disse que o regime militar escondeu informações sobre uma epidemia de meningite em 1975. “É uma tragédia o que a gente está vendo agora, o desmanche da informação”, afirmou. “Por mais que eles queiram retirar do ministério, podem os conselhos nacionais de secretários estaduais de Saúde transmitir as informações. É da transmissão de informações que se ganha credibilidade”, frisou. Mandetta finalizou ressaltando que o coronavírus pode estar causando um “genocídio” da população indígena no País.