O GLOBO – 05/02/2020
LUIZA BARROS
O governo federal usou uma conta oficial no Twitter para direcionar críticas à cineasta Petra Costa. Na noite de segunda-feira, a @secomvc, perfil que representa a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência na rede social, compartilhou um vídeo em que chama de “fake news” uma entrevista concedida a uma emissora americana pela diretora de “Democracia em vertigem”, filme que concorre ao Oscar na categoria documentário. No longa, a diretora apresenta a sua visão pessoal sobre os acontecimentos que levaram ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016.
Na mensagem que acompanha o vídeo, a Secom classificou Petra como “militante anti-Brasil”.
“Nos EUA, a cineasta Petra Costa assumiu o papel de militante anti-Brasil e está difamando a imagem do País no exterior. Mas estamos aqui para mostrar a realidade. Não acredite em ficção, acredite nos fatos”, diz o tweet.
Na entrevista, Petra faz críticas, por exemplo, à política ambiental de Bolsonaro, sobretudo na Amazônia. O vídeo da Secom pausa a fala dela para citar, por escrito, medidas que o governo teria criado para o combate ao desmatamento.
Na sequência, a Secom ainda publicou um segundo tweet defendendo que “os fatos sempre prevalecem”, mas indicando que a fonte da informação era “vídeo publicado em canais da internet”. Diante de críticas, apagou a mensagem.
A Secom também publicou outra série de tweets, em inglês, em que afirma que Petra Costa “perdeu todo o contato com a realidade” e “mente sobre o Brasil”. Após a repercussão das mensagens, o secretário Fabio Wanjgarten usou sua conta pessoal para defender a iniciativa:
“Um dos deveres da comunicação do governo é informar os fatos, sobretudo quando informações falsas são espalhadas no Brasil e no exterior. Porém, o que muitos querem, de fato, é denegrir o país sem direito a réplica por parte dos brasileiros. Isso sim é censura!”, escreveu Wanjgarten.
Em outra mensagem, ele continuou: “Mentiras sobre o Brasil causam prejuízos técnicos (…) Discordar, criticar e até xingar é uma coisa, mentir em nível interna ciona lé outra.O Brasil não ficará calado !”
Ontem, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) protocolou no Ministério Público Federal uma representação contra Fabio Wajngarten.
PÚBLICO E PRIVADO
Professor de Teoria do Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), José Ricardo Cunha diz que o uso de um canal de comunicação oficial do Estado para dirigir críticas a uma pessoa contrária ao governo fere o princípio da impessoalidade da administração pública, previsto pelo artigo 37 da Constituição Federal:
— Os atos da administração devem ser revestidos de uma forma que não diga respeito aos sujeitos que nela atuam, suas visões de mundo e ideologias.
Para o especialista, há uma confusão não só entre público e privado, mas entre governo e Estado.
—Há uma burocracia pública que deve atendera os interesses do Estado, não do governo—diferencia Cunha.—Esse ti pode crítica que foi feita notweet atendem ui tomais ao interesse dos governantes de se defender do que ao de uma política de Estado. A defesa deve ser feita pelos canais pessoais dos governantes. Isso é um problema de impessoalidade e também de moralidade.
Até o fechamento desta edição, ontem às 20h30, a espondeu ao pedido de entrevista sobre o caso. À tarde, escreveu no Twitter: “Os cães ladram, é sinal que…”
Nãoéa primeira vez que o governo gera polêmica com o diretor de um filme na mira do Oscar. Em 2016, na gestão de Michel Temer, o longa “Aquarius”, Kleber Mendonça Filho, era o favorito para ser o candidato brasileiro a tentar uma vaga na disputa de filme internacional, mas acabou preterido por “Pequeno segredo”, de David Schürmann. Na época, Kleber afirmou que houve uma “ideia de retaliação” a “Aquarius” no processo de escolha, causado pelo protesto que o diretor e a equipe do filme fizeram meses antes, em Cannes, contra o impeachment de Dilma Ro us seff. A não indicação do filme estava, para ele ,“em total sintonia coma realidade política do Brasil”.