O ESTADO DE S.PAULO – 21/04/2020

THE NEW YORK TIMES

Quando pedimos aos leitores que enviassem suas perguntas sobre o coronavírus, surgiu um tema comum: muitas pessoas estão com medo de trazer o vírus para dentro de casa em roupas, calçados, correspondências e até jornais. Conversamos com especialistas em doenças infecciosas, cientistas e microbiologistas para responder às perguntas dos leitores sobre os riscos de entrar em contato com o vírus durante saídas essenciais e nas entregas em domicílio. Ainda precisamos tomar muitas precauções, mas as respostas foram tranquilizadoras.


Preciso trocar de roupa e tomar banho quando voltar do supermercado?

Para a maioria de nós que estamos em distanciamento social e saímos apenas para ir ao supermercado ou à farmácia, os especialistas concordam que não é necessário trocar de roupa ou tomar banho na volta para casa. Mas é preciso lavar as mãos, sempre. Embora seja verdade que espirro ou tosse de uma pessoa infectada possa jogar gotículas virais e partículas menores pelo ar, a maioria cai no chão. “É improvável que uma gota pequena o suficiente para flutuar no ar por algum tempo acabe se depositando nas roupas, por causa da aerodinâmica”, disse Linsey Marr, cientista de aerossóis da Virginia Tech.

Mas por que pequenas gotículas e partículas virais dificilmente pousam nas roupas?

Pedi a Marr que explicasse melhor, já que todos nós estamos assistindo a uma miniaula de aerodinâmica. “A melhor maneira de descrever isso é dizer que elas flutuam por linhas de fluxo, fluxos de ar, em torno das pessoas, porque nos movemos relativamente devagar. São como os pequenos insetos e partículas de poeira: eles flutuam pelas linhas de fluxo ao redor de um carro em velocidade baixa, mas podem atingir o para-brisa se o carro estiver indo mais rápido”, explicou Marr. “Os humanos geralmente não se movem rápido o bastante para que isso aconteça”, continuou. “À medida que avançamos, empurramos o ar para fora do caminho, e a maioria das gotículas e partículas também é empurrada para longe. Alguém teria de borrifar grandes gotas durante uma conversa – aquelas pessoas que falam cuspindo – ou numa tosse ou espirro para que essas partículas pousassem nas nossas roupas. As gotículas precisam ser grandes o suficiente para não seguir as linhas de fluxo.” Então, se você estiver fazendo compras e alguém espirrar em você, o melhor a fazer é ir para casa, trocar de roupa e tomar banho. Mas, fora isso, pense que seu corpo lento está empurrando o ar e as partículas virais para longe de suas roupas, graças a uma física bem simples.

Existe o risco de o vírus ficar no meu cabelo ou barba?

Por todas as razões descritas acima, você não precisa se preocupar com a contaminação viral de seus cabelos ou barba, se estiver fazendo distanciamento social. Mesmo se alguém espirrasse na parte de trás da sua cabeça, qualquer gota que caísse no seu cabelo seria uma fonte improvável de infecção. “É só pensar no processo necessário para alguém se infectar”, disse Andrew Janowski, professor de doenças infecciosas pediátricas do Hospital Infantil St. Louis da Escola de Medicina da Universidade de Washington. “Alguém precisa espirrar, e esse espirro precisa ter uma quantidade X de vírus, para que uma certa quantidade de gotas caia em você. Aí você precisa tocar na parte do cabelo ou da roupa que está com essas gotículas, que já têm uma redução significativa nas partículas virais”, disse. “Depois você precisa tocar nessa parte e em seguida em qualquer parte do seu rosto para se infectar. Isso deixa o risco muito baixo.”

Preciso me preocupar em lavar e separar as roupas?

As roupas de rotina não devem ser motivo de preocupação. Lave-as como faria normalmente. “Sabemos que os vírus podem se depositar na roupa (por causa das gotículas) e depois se soltarem para o ar com movimento, mas seriam necessários muitos vírus para que isto fosse algo preocupante, muito mais do que uma pessoa comum encontraria andando ao ar livre ou indo ao supermercado”, afirmou

Marr. A exceção é se você estiver em contato com um doente.

Por quanto tempo o vírus consegue permanecer viável em tecido e outras superfícies?

A maior parte do que sabemos sobre quanto tempo esse novo coronavírus consegue sobreviver em superfícies vem de um estudo de The New England Journal of Medicine de março. O estudo descobriu que o vírus sobrevive por até três dias em superfícies de metal duro e plástico e até 24 horas em papelão. Mas o estudo não analisou sua sobrevivência nos tecidos. Ainda assim, a maioria dos especialistas em vírus acredita que a pesquisa sobre o papelão dá algumas pistas sobre como o vírus provavelmente se comporta nos tecidos. As fibras naturais absorventes do papelão parecem fazer com que o vírus seque mais rápido do que em superfícies duras. As fibras do tecido provavelmente têm efeito semelhante. Um estudo de 2005 sobre o vírus que causa a Síndrome Respiratória Aguda Grave, outra forma de coronavírus, fornece dados tranquilizadores. Nesse estudo, os pesquisadores testaram quantidades cada vez maiores de amostras virais em papel e num vestido de algodão. Dependendo da concentração viral, foram necessários 5 minutos, 3 horas ou 24 horas para os vírus ficarem inativos.

Preciso me preocupar com as correspondências, as entregas e o jornal?

O risco de ficar doente ao lidar com correspondências e entregas é extremamente baixo e, por enquanto, apenas teórico. Não há casos documentados de alguém que tenha adoecido ao abrir um pacote ou ler jornal. Mas isso não significa que você não deva tomar precauções. Após manusear correspondência e entregas ou ler o jornal, descarte a embalagem e lave as mãos. Se você ainda estiver especialmente preocupado com isso, siga as orientações do estudo do New England Journal e deixe as correspondências e pacotes descansarem por 24 horas antes de manipulá-los.

Quanto devo me preocupar com a contaminação quando saio para passear?

Suas chances de pegar o vírus quando sai ao ar livre são extremamente baixas, desde que você mantenha uma distância segura das outras pessoas. “Ambientes ao ar livre são seguros e certamente não há nuvens de gotículas carregadas de vírus”, disse Lidia Morawska, professora e diretora do Laboratório Internacional de Saúde e Qualidade do Ar na Universidade de Tecnologia de Queensland, em Brisbane, na Austrália. “Qualquer gota infecciosa exalada seria rapidamente diluída pelo ar externo, de modo que suas concentrações logo cairiam a níveis insignificantes”, disse Morawska. “Além disso, a estabilidade do vírus ao ar livre é significativamente menor do que em ambientes fechados.”

Li que, quando chego em casa, preciso tirar calçados… Os calçados podem abrigar bactérias e vírus, mas isso não significa uma fonte comum de infecção. Um estudo de 2008 encomendado pela Rockport Shoes encontrou muitas coisas nojentas – entre elas bactérias fecais – nas solas dos nossos calçados. Um estudo recente da China descobriu que metade dos profissionais de saúde tinha coronavírus em seus calçados, o que não é de surpreender, pois eles estavam trabalhando em hospitais cheios de pacientes infectados. Então, o que devemos fazer com os calçados? Se eles são laváveis, você pode lavá-los. Alguns leitores perguntaram se podem limpar as solas com lenços desinfetantes. Isto não é recomendado. Não apenas porque desperdiça bons materiais de limpeza (que estão em falta), como também traz os germes para as mãos. Você pode fazer duas coisas: tentar não pensar no que está escondido nos seus calçados, ou conversar com seus familiares sobre a possibilidade de se tornarem uma família sem calçados dentro de casa. Se você tem um filho que engatinha ou brinca no chão, um parente com alergias ou mora com alguém que tem um sistema imunológico comprometido, uma casa sem calçados pode ser uma boa ideia. “Se você quer falar sobre bactérias, tudo que precisa saber é que elas gostam de viver nos calçados”, disse Janowski.