O GLOBO – 03/02/2020

Shaísta Hakim nasceu no Vale do Swat, Noroeste do Paquistão, berço da civilização budista Gandara, com paisagens que a rainha da Inglaterra chegou a comparar aos Alpes suíços. Mas não foi a paisagem de cartão postal que fez o Vale do Swat virar notícia. Entre 2007 e 2009, o Talibã paquistanês transformou as cadeias montanhosas no seu reino de terror. Foi na principal cidade da região, Mingora, que Malala Yousafzai sofreu um atentado e passou a ser o símbolo da luta pelo ensino de meninas e jovens em todo o mundo, o que a levou a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, em 2014. Foi por causa do Talibã que Shaísta Hakim resolveu lutar pelos direitos das mulheres, contra os crimes de honra, o conservadorismo e até a oposição da própria família para ser jornalista. Hoje, aos 26 anos, trabalha na rede de televisão local Khyber News e é a primeira e única mulher jornalista do Vale do Swat.


Como era sua vida durante a ocupação do Talibã no Vale do Swat?

Era muito difícil. Não nos permitiam nem mesmo sair com a nossa própria família ou ir ao mercado. Quando a situação ficou ainda mais violenta, fecharam as escolas. Eu, que tinha 13 anos, tinha vindo da minha aldeia para estudar em Mingora e morava numa pensão com outras meninas, fiquei presa sem poder sair. No dia em que o Exército chegou e deu a ordem para todos abandonarem o vale (dois milhões e trezentos mil habitantes foram forçados a fugir), vi meninas e mulheres correndo, tentando salvar suas vidas. Quando já estava com o resto da minha família, em Peshawar, para onde fugimos, nasceu a vontade de ser jornalista e de lutar pelos direitos das mulheres.

E a situação hoje, dez anos depois expulsão dos talibãs pelo Exército?

Hoje, as meninas em Mingora sabem quais são os seus direitos e estão estudando. Já é permitido que jovens de ambos os sexos frequentem a mesma universidade, mas em salas separadas. Como milhões de pessoas tiveram que deixar a região e moraram em outras cidades, entenderam a importância da educação. Mas ainda há muito a fazer, principalmente nas aldeias mais atrasadas, onde há muita resistência para enviar as filhas para estudar.

Muitas jovens ainda morrem por quererem estudar?

Sim. Infelizmente, a maior parte das aldeias da região é muito retrógrada. Ainda há gente que acha que uma mulher que estuda está desonrando o marido. Muitas jovens são assassinadas por quererem estudar e há os casos de falsos suicídios. Os maridos matam as mulheres e dizem que foi suicídio. Pelo menos hoje, se forem denunciados, são presos. Outro problema são os casamentos forçados de meninas e jovens com homens muito mais velhos. Em 2015, 64 mulheres morreram vítimas de crimes de honra no Vale do Swat. Em 2016, foram 50 mulheres e três homens. Em 2017, 40 mulheres e, em 2018, 10 mulheres e dois homens. Estes são os dados oficiais, mas há muitos casos que não são denunciados.

Como foi que conseguiu trabalhar como jornalista? Foi difícil convencer a sua família?

A sociedade em que eu vivo é predominantemente patriarcal. Não é comum as mulheres trabalharem fora, fazer isso na televisão era inimaginável. Até hoje não é um assunto bem resolvido. Quando comecei a aparecer em programas de TV, uma parente ligou para a minha mãe perguntando se eu havia enlouquecido. Minha mãe me telefonou aos gritos. Trabalho como jornalista há nove anos (desde os 17) e até hoje nenhum clube ou associação de jornalistas da região me deixa ser afiliada.

E qual é a reação quando você vai às aldeias mais conservadoras? Como as famílias te recebem?

No início, eu tinha medo pela minha vida, mas hoje não ligo mais. Eu digo às jovens e mulheres que elas têm que estar cientes do seu direito de estudar. O jornalismo é a minha paixão, eu comecei este trabalho depois de ver muita violência. Jornalismo não é escrever ou falar sobre o que as pessoas já sabem, mas sobre o que elas não sabem. Estou agora fazendo uma reportagem sobre crimes de honra cometidos por homens de famílias ricas. Nós devemos lutar pela causa certa. Eu só deixarei de ser jornalista no dia que morrer.