O GLOBO – 05/04/2020 

FERNANDO EICHENBERG 

Habituado a rodar o planeta retratando as maiores tragédias humanas (entre guerras, êxodos ou a fome) e os mais belos e intocados cenários (em expedições para o projeto “Gênesis”), o fotógrafo Sebastião Salgado encontra-se hoje, como grande parte da população mundial, confinado em casa.

Recolhido em seu apartamento parisiense, ao lado da mulher e parceira de trabalho, Lélia, e do filho Rodrigo, ele segue à risca as regras da quarentena estabelecidas pelo governo francês. E passa boa parte dos dias editando as imagens do projeto a que se dedicou nos últimos sete anos: fotografara Amazônia. O material será te mada próxima grande exposição que fará, a partir de abril de 2021. Dizendo ter sentido “uma espécie de vazio na alma”, Salgado defende que o homem chegou ao limite em sua relação coma natureza e explica por que crê que a pandemia mudará os valores no mundo: —Só nas grandes catástrofes surge mas grandes solidariedades e reais preocupações como futuro da Humanidade. Isso é o que teremos de fazer agora.

Como você está vivendo este período de isolamento?

A Lélia tem uma deficiência respiratória hereditária, e temos muito medo. É um vírus que ataca o sistema respiratório, e ela é um caso de ultrarrisco. Tive uma sensação muito rara no dia em que começou o confinamento oficial (17 de março), quando a partir do meio-dia tudo fecharia. Já tinha vivido isso antes. Senti o mesmo em reportagens fotográficas em zonas de guerra onde haveria um ataque massivo. Não se sabia quem iria morrer. Poderia ser você, alguém ao lado ou outra pessoa. Era aleatório. É uma sensação tão singular, de que a vida continua e algo grave vai se passar. Lembro uma vez na Irlanda, em que estava com o exército inglês em Armagh County, e sabia-se que no dia seguinte haveria um ataque do IRA. Senti muito isso durante a guerra em Angola, na época da independência, em que o exército sul-africano e os movimentos contra a MPLA atacariam Luanda. E também na Bósnia, em alguns campos de refugiados, quando se sabia que haveria um bombardeamento no dia seguinte, o que realmente ocorreu. Foi esta a sensação naquela terça-feira pela manhã. É uma espécie de vazio na alma. Vai ser grave, mas para quem? Poderá ser para mim, minha mulher, meus filhos. Não se sabe onde a bomba vai cair.

Como anda sua rotina?

Fiz um trabalho longo na Amazônia, de sete anos, e estou na fase final de edição. Quando sentimos o que ia se passar, trouxemos todas as imagens para editar em casa. Eu e Lélia estamos trabalhando nisso. E, pelo fato de termos um filho com síndrome de Down, nos acostumamos a ficar em casa. Já saímos muito pouco para poder ficar com ele.

Tem ido à rua?

Eu que faço as compras, protejo ao máximo a Lélia. Nós dois somos grupos de risco, ela tem 73 anos, e eu, 76. Fazer o quê? Hoje é também algo particular sentir a eliminação dos mais velhos na hora do tratamento. Na Itália, começou com pessoas acima de 85 anos, depois passou para 80, e baixou para 65. A partir daí, deixa morrer, privilegiando o atendimento aos mais novos. É uma sensação estranha também por este lado, saber que você faz parte de um grupo que será excluído se a enfermidade radicalizar.

Você fotografou as maiores aglomerações humanas e paisagens intocadas. Qual seu sentimento ao ver, hoje, o mundo parado?

Tenho a impressão de que estamos vivendo um ponto de inflexão. Daqui para a frente, certamente será outra coisa. Acredito que haverá muito mais preocupação com a natureza e o planeta. Nossa sociedade foi se dirigindo cada vez mais para a superficialidade. Veja o que é o PIB dos países ricos. Quando se anda na rua, se nota a enorme quantidade de lojas de roupas e de alimentação sofisticadas, e de tantas coisas que, se cessarem, nada mudará para a sociedade, porque nada disso é essencial. Fomos na direção de um PIB feito de superficialidades, de sofisticações desnecessárias. Quanto mais se é rico, mais se consome coisas superficiais, que têm, cada uma, um preço para o planeta, por sua marca de carbono, matérias-primas, minerais, petróleo. Estamos muito perto da própria morte ou da morte de nossos próximos para dar valor à superficialidade. Penso que, com agravamento da epidemia, muitos valores vão mudar. Voltaremos a um conceito de essencial, de proteger a natureza, de realmente produzir pelo bem-estar do ser humano. A razão de viver é viver, é o bem-estar.

Que exemplo daria sobre esta volta ao essencial?

A França tinha um sistema hospitalar incrível até a modificação do conceito de rentabilidade na economia. O Estado passou a ter de pensar em termos de rentabilidade, quando, na realidade, suas despesas são gastos sociais, para o bem-estar de seu cidadão. Em uma economia como a brasileira hoje, só se pensa no lucro das empresas. O bem-estar dos trabalhadores e da grande maioria da população não interessa. Interessa é o conceito de rentabilidade aplicado às finanças públicas de uma nação, o que não pode funcionar. O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que vai investir no sistema hospitalar. Penso que isso vai acontecer um pouco em todas as partes do planeta. Temos de voltar a pensar em nossa produção de riqueza para o bem-estar da Humanidade, e não para lucro, superficialidade

e acumulação de riquezas de um pequeno grupo. O Estado vai ter de começar a funcionar seriamente como Estado.

Cientistas e ecologistas dizem que esta pandemia seria um ultimato da natureza. Você concorda?

Este grande desequilíbrio que criamos da natureza está vazando para nós, a espécie dominadora que ocupou todo o espaço. Mas estão ocorrendo também catástrofes naturais, como os ciclones, com uma violência extrema. Isso está totalmente ligado à supressão dos amortecedores da natureza. A destruição da Floresta Amazônica vai levar a uma catástrofe planetária. Olhe a destruição feita no ano passado, para dar satisfação ao agronegócio brasileiro, que na realidade nem precisa dessas terras. É o

maior agronegócio do mundo, mas a ganância é tão grande que este presidente eleito incentivou a penetração por meio das propriedades limítrofes com a floresta. Chegamos ao limite. Não se trata de voltar a viver em cavernas ou na floresta, mas, pelo menos espiritualmente, teremos de nos reconectar com o planeta, para protegê-lo e recuperar boa parte do que já destruímos. Veja o que está acontecendo no Brasil, hoje, com a epidemia. Os municípios e os estados estão reagindo, enquanto um governo federal está procurando liderar a proteção do lucro. É preciso uma unidade de coordenação de movimentos, porque são centenas de milhares de vidas ameaçadas, e que estão começando a ser executadas. Está na hora de ter um comportamento realmente nacional, humano, cidadão,

e não um divisionismo.

A globalização irá mudar?

Por que estamos sendo atacados assim? Porque é muito fácil. Nós nos isolamos, o ser humano saiu do planeta. Somos aliens no nosso próprio planeta. Quem somos? Qual é a nossa relação com a natureza? Temos de nos preparar para nos entendermos melhor entre nós. Pacificar. Por que a França não investe mais nos hospitais? Porque existe um sistema militar que consome tudo. Um caça de combate completamente equipado custa em torno de 200 milhões de euros. É um dinheiro estéril que se está gastando nesse sistema de armamento, porque uma nação se equipa, e daqui a 30 anos tudo já está obsoleto. Nas festas de Halloween, as pessoas compram um monte de coisas, e no dia seguinte está tudo no lixo. Só nas grandes catástrofes surgem

as grandes solidariedades e reais preocupações com o futuro da Humanidade. Isso é o que teremos de fazer agora.

Apedido,vocêescolheupara ilustrar esta entrevista duas fotos que tivessem relação com este momento que vivemos. Por que estas imagens?

Elas são, para mim, fotos yin e yang. Uma delas ( ada capa), com milhares de pessoas saindo de trens na estação Churchgate, em Mumbai. A chegada, com milhares de pessoas saindo dos vagões, representa a vida, a aglomeração, a aproximação, tudo o que o coronavírus, hoje, nos nega. É uma imagem proibida. E a foto de São Paulo (no alto desta página) mostra uma cidade sem seres humanos, com uma nuvem negra que a ameaça. Representa também, para mim, uma interrogação do coronavírus. (Fernando Eichenberg)