O GLOBO – 02/02/2020

NAIRA TRINDADE E GUSTAVO MAIA 

A delicada missão de portar a voz de alguém sem emitir a própria opinião pode se tornar inglória. “Porta-voz é igual a goleiro, só erra uma vez. Se tomar um frango, vai para o banco. Você não pode errar no briefing. O briefing é ao vivo. Então, se você diz uma grande besteira ao vivo, normalmente submete a sua demissão no mesmo dia”, definiu o então porta-voz de Michel Temer, o diplomata Alexandre Parola para o livro “No Planalto com a imprensa”, que traz entrevistas de secretários de imprensa e porta-vozes de Juscelino Kubitschek a Luiz Inácio Lula da Silva. Parola exerceu a mesma função no final da gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 2002.


A escolha de um diplomata para assumir a função visava pôr fim a uma série de polêmicas provocadas por declarações dos ministros de Temer. Parola foi escalado para abrir um canal oficial com a imprensa. A ideia inicial do presidente era que o escolhido seguisse o modelo americano, em que o porta-voz faz um meio de campo com a imprensa e respondia a perguntas. Nas primeiras semanas, Alexandre Parola chegou a experimentar esse modelo de responder a questionamentos, mas logo voltou a apenas ler notas oficiais de Temer, normalmente as comemorativas sobre resultados econômicos. Em janeiro de 2018, Parola disse ao GLOBO que o modelo anterior “não era funcional”. O diplomata não demorou a ganhar apelido de “porta-nota”, por se limitar à leitura de textos.

—A voz é dele. Eu sou porta-voz. Quando a voz fala, a porta fecha — explicou ao GLOBO na época, afirmando que tradicionalmente as notícias quentes saíam da boca do presidente. —É quase uma piada isso, mas a divisão dos trabalhos é: o porta-voz dá notícia não tão boa, e o presidente dá notícia boa. E está ótimo. Eu não sou notícia. A notícia é o meu chefe —afirmava ele, em referência ao então presidente. Na época de Temer, os briefings eram usados apenas em momentos específicos. “O briefing é apenas um recurso de uma instituição. Eu era só um o canal disso. Alguém que fazia a intermediação, de forma neutra, como o porta voz”, disse Parola em depoimento para o livro.

O perfil de diplomata discreto também fora a escolha da ex-presidente Dilma Rousseff, que em 2015 levou o diplomata Carlos Villanova para ser porta-voz da Presidência. Com carreira no Itamaraty, Villanova já estava vinculado à Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), cargo já ocupado por ele durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até a chegada dele, o cargo também chegou a ser ocupado temporariamente pelo jornalista Thomas Traumann.

Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o jornalista e cientista político André Singer para assumir o papel de seu interlocutor com a imprensa. Singer assumiu com a responsabilidade de dar os briefings diários com a posição oficial do governo e do presidente para a mídia. “Foi muito difícil desempenhar essa tarefa porque a responsabilidade é muito grande. Você não pode errar porque o erro sempre tem consequências e é difícil estar preparado para responder a todas as perguntas que vão surgir”, disse André Singer, no livro “No Planalto com a imprensa”.