O GLOBO – 07/04/2020

VINDU GOEL E JEFFREY GETTLEMAN – The New York Times 

O apresentador do Media One Vinesh Kunhiraman entrou no ar como de costume no dia 6 de março, pronto para contar aos 5 milhões de telespectadores da emissora no estado indiano de Kerala sobre o aniversário da morte de um amado comediante, e também as últimas notícias sobre a pandemia do novo coronavírus. Apenas alguns minutos depois, ele viu o editor-executivo da emissora no chão do estúdio, gesticulando loucamente.


—Percebi que algo estava errado —lembrou Kunhiraman.

De repente, o sinal foi interrompido e a imagem de

Kunhiraman desapareceu em uma tela azul. Uma mensagem dizia aos telespectadores que não havia sinal: “Lamentamos o inconveniente”.

Mas não foi um problema técnico. A estação foi tirada do ar a pedido do Ministério da Informação e Transmissão da Índia. O governo decidiu bloquear o canal por 48 horas, porque eles haviam coberto a maior notícia de fevereiro —os ataques de uma multidão contra muçulmanos em Nova Délhi —de uma maneira que parecia “crítica para a polícia de Délhi e a RSS”, segundo a ordem.

A RSS é uma organização radical hindu com laços estreitos com o primeiro-ministro Narendra Modi e seu partido, o Bharatiya Janata (Partido do Povo Indiano).

—Foi chocante que o governo central tenha tomado essa decisão —disse R. Subhash, um editor da Media One. —Foi um ataque à liberdade de imprensa.

A imprensa livre da Índia desempenhou um papel crucial na proteção da democracia no país desde a sua independência do Reino Unido, em 1947. Mas os jornalistas agora estão sob ataque. Desde que Modi chegou ao poder, em 2014, seu governo tenta controlar a mídia, especialmente as emissoras de rádio, como nenhum outro primeiroministro em décadas.

Com a pandemia do coronavírus, ficou mais flagrante a tentativa de Modi de controlar a cobertura, e alguns executivos da imprensa indiana parecem dispostos a segui-lo. Pouco antes de anunciar a maior quarentena mundial, de 1,3 bilhão de pessoas, o premier se reuniu com os principais donos dos meios de comunicação e os exortou a publicarem “histórias inspiradoras e positivas” sobre os esforços do governo para conter a pandemia.

Depois que o bloqueio deixou meio milhão de trabalhadores migrantes presos, com alguns morrendo pelas rodovias, seus advogados convenceram a Suprema Corte a ordenar que todos os meios de comunicação “publiquem a versão oficial” dos desdobramentos da doença no país. Uma associação das principais emissoras de TV elogiou a decisão do tribunal, o que muitos intelectuais disseram ser mais um ataque à liberdade de expressão garantida pela Constituição.

O universo da mídia na Índia é vasto, talvez o maior do mundo: mais de 17 mil jornais, 100 mil revistas, 178 canais de notícias na TV e inúmeros sites em dezenas de idiomas.

Mas os ministros de Modi se apoiaram nos líderes empresariais para interromper o apoio à mídia independente, estrangulando lentamente suas operações. Seu governo pressionou proprietários de jornais, rádios e TVs a demitirem jornalistas que criticaram o primeiro-ministro.

Enquanto Narendra Modi constantemente proclama a Índia como a maior democracia do mundo, sua posição no índice de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras é a 140º, num total de 180 países.